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Arquivo do mês: maio 2009

espetacularização do conhecimento

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Arthur Schopenhauer

Arthur Schopenhauer foi um filósofo que herdou elementos fundamentais da filosofia kantiana, mas nem por isso é hoje considerado um idealista alemão, ao lado de seus “contemporâneos” Fichte, Schelling e Hegel. Sua recusa a toda e qualquer forma de deturpação da filosofia kantiana, a qual ele julgava entender melhor que todos, é evidente. Todavia, mesmo com toda fé no Idealismo Transcendental kantiano, ele foi mais longe, construindo até seu próprio sistema, que pode ser entendido basicamente a partir das seguintes áreas: teoria do conhecimento, ontologia, ética e estética. Áreas essas que nem sempre são compreendidas como constuitindo um todo coerente.

Estas considerações introdutórias são necessárias para situar o pensador, mas o que nos interessa aqui, por hora, é tecer comentários acerca da visão de Schopenhauer a respeito da filosofia universitária e seu “espetáculo do conhecimento”. Comentários que são baseados em aspectos isolados de sua obra capital.

Já no prefácio à segunda edição de sua obra principal, O Mundo como Vontade e como Representação, o autor avisa que sua obra não foi feita para os seus contemporâneos ou compatriotas, mas para a humanidade. Esta declaração evidencia o valor de uma obra filosófica para Schopenhauer e que, de certo modo, não se reduz a um caráter histórico. Na época, não muito diferente de hoje, a filosofia universitária tinha muito valor, ou melhor, o ambiente acadêmico, mesmo que ele sempre fosse “permeado” por incoerências.

Schopenhauer & o contexto atual.

Nos deparamos com pessoas que, como autor denunciava, querem viver da filosofia, isto é, estas pessoas são sofistas contemporâneos que, de maneira apressada e pouco cuidadosa, lêem tratados filosóficos e já começam a falar a respeito como se fossem especialistas. Falta-lhes o reconhecimento de um pressuposto básico paa a compreensão de clássicos filosóficos que, diferentemente do trabalho dos picaretas, exigem uma atenção especial. Este pressuposto é justamente a maturidade intelectual.

Como Kant, o autor se interessava mais por um exercício que garantisse com que as pessoas não ultrapassassem os limites do conhecimento, cometendo assim erros. Mesmo que com isso fosse exigido das pessoas a abdicação de bengalas ou fantasmas, como a metafísica, pois, como lembra Kant em sua Crítica da Razão Pura, mesmo quando não havendo ampliação do conhecimento, já é de grande valor não criar quimeras.

Contra dois dos principais aspectos da filosofia idealista alemã, sejam eles a intuição intelectual e a dialética, Schopenhauer dirige suas críticas. Para ele, esses dois elementos violavam a lógica da arquitetônica kantiana. Pobre Arthur, não foi capaz de prever a que condições decadentes a filosofia poderia alcançar.

Se Schopenhauer conseguisse antever o caráter sectário que iria estar presente na academia, com certeza escreveria mais ainda xingamentos contra a demência dessa sofistaria. A justificação que se dá hoje para a produção de trabalhos feita por um acadêmico de filosofia no Brasil, por exemplo, é baseada na idéia de que, enquanto cientistas, esses intelectuais devem “atualizar” os seus saberes. Ocorre que esquecem-se do que já colocamos anteriormente: a necessidade de maturidade intelectual para investigações e estudos mais sérios. Infelizmente, correndo contra o tempo e desejando alimentar a si mesmos e aos seus familiares, os “filósofos” contemporâneos vêem-se obrigados a se submeter a essas regras, que são apenas uma dentre as várias expressões do empobrecimento intelectual do  sistema universitário.  Com produções de baixa qualidade e que, de forma alguma, são reflexo de um trabalho mais profundo, esses acadêmicos vivem isolados em uma ilha da ilusão. Essa ilha pode ser traduzida como um momento que sempre vem à tona, principalmente porque os indivíduos tentam buscar um sentido para tudo isto. Neste sentido, Schopenhauer se faz atual. No seu primeito livro de O mundo…, ele denunciou que determinadas posturas, como a realista e a idealista já conduziriam a um estado no qual o conhecimento estaciona. (*)

O realismo põe o objeto como causa, e o efeito dele no sujeito. O idealismo fichtiano faz do objeto um efeito do sujeito. Como, entretanto – no que nunca é demais insistir -, entre sujeito e objeto não há relação alguma segundo o princípio de razão, segue-se que nem uma nem outra das duas afirmações pode ser comprovada, e o ceticismo faz ataques vitoriosos a ambas.

De acordo com Schopenhauer, esses falsos problemas ou falsas pressuposições acerca da realidade do mundo exterior acarretam no ceticismo. Para ilustrar, colocamos esta crítica schopenhaueriana, mas o que nos interessa, contudo, é a extensão desses erros na atualidade, tempo onde a filosofia se assemelha mais a um palco em que há estréias de diversos espetáculos. “Qual a sua área de atuação?”, pergunta comum feita hoje que já serve de parâmetro para a decisão por um diálogo. É como se, de acordo com o exemplo de Schopenhauer, um realista não quisesse conversa com um idealista fichtiano, e ambos, em vez de enxergar os próprios problemas de seus sistemas – que já não abarcam a realidade sobre a qual pretendem teorizar-, quisessem apenas defender a sua teoria e ir contra a do outro de forma veemente. A filosofia, ao invés de ser colocada como busca, é banalizada; inclusive, pode ser vista mais como conflito entre partidos ou brigas de torcidas. Como se não bastasse, quando há um encontro “formal” entre eles, parecem mais feiras ou Workshops, através dos quais comerciantes expõem seus saberes e tentam encontrar quem compre suas teorias.

Na situação em que nos encontramos, é fácil concordar com o autor da obra O vazio da Máquina, que exprime a nossa condição em relação à filosofia da seguinte forma:

Como fomos tolos, como tardamos em descobrir que o jardim secreto da filosofia é o hospício daqueles que acreditam no conhecimento, na profundidade do conhecimento.

(*) As críticas feitas por Schopenhauer são específicas, porém nos utilizamos aqui como exemplos que servem para exibir problemas no tocante à falta de reconhecimento dos indivíduos em relação às diversas esferas do saber.

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espetacularização do eu (2)

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Voltando ao tema abordado no último post

Ao fazer uma conclusão acerca de uma condição em que as pessoas não são livres, temos como objetivo denunciar que essa experimentação que o Eu faz enquanto subjetividade carece de uma fundamentação. Melhor dizendo, o “Eu” não reflete sobre a sua postura em relação aos fatos, em relação à esfera de sentido na qual ele está inserido. A experimentação que ele faz na construção da sua própria subjetividade, na realidade, não é autônoma, não é livre. Liberdade, nesse caso, não é simplesmente fazer o que se quer. Aqui fazemos referência às filosofias da liberdade – ou Idealismo Alemão -, principalmente à filosofia de Hegel.

Para Hegel, um filósofo moderno, uma das exigências dessa liberdade é sair do campo formal, pois a liberdade efetiva não se reduz a um caráter de “ser livre” no pensamento. Ora, essas subjetividades não podem ser livres, pois falta-lhes justamente esse reconhecimento próprio no campo social, através do qual os sujeitos se afirmam porque conhecem a verdade das suas relações, isto é, as diferenças e divisões sobre as quais já falamos.

Trazendo Hegel para a discussão contemporânea, imaginamos a força da uma afirmação sua em uma passagem da obra Princípios da Filosofia do Direito que preconivaza um estado no qual os homens poderiam ser substituídos por máquinas. Mas isso ele falava em relação ao trabalho, agora imaginemos o alcance dessa afirmação em relação às condições atuais. Ou melhor, ilustremos com outra afirmação mais recente (1968), uma citação que Sibilia faz em sua obra:

Daqui a uns poucos anos, o homem será capaz de se comunicar de forma mais efetiva através de uma máquina do que face a face. (J.C.R. Lincklider apud Sibilia)

Isso implica que o homem não estabelece mais relações em função das suas necessidades básicas. Ou, visto de outra forma, as necessidades básicas do homem já são outras.

A alienação e a massificação são entendidas aqui como exemplos de estratégias humanas para velar, esconder, nessa comunicação, o real propósito de cada um: a satisfação de seus desejos individuais, sejam eles quais forem.

A falta de consciência representa o desprezo pelo social, pela estrutura, pela unidade. O diálogo seria uma ferramenta de resgate desse organismo social, enquanto elemento fundante dessas relações – em contraponto ao isolamento. Para tornar mais claro, o isolamento a que nos referimos ou a união “forjada” que é estabelecida na comunicação são exemplos que mostram que indivíduos não refletem sobre suas maneiras de satisfazer os desejos, sobre o valor das suas necessidades, e pior: não são capazes de imaginar o social, o todo, a unidade e  as implicações que ocorrem a nível de sociedade nessas escolhas pouco fundamentadas, irrefletidas. Aqui fazemos alusão ao investimento pesado que indústrias fazem para simular “necessidades”, à lógica do mercado, ao consumismo.

Novamente a nível de ilustração, fazemos referência a Foucault que, no final da sua obra A palavra e as coisas, afirma que o Homem é uma invenção recente, mas que já está em vias de desaparecer. Foucault admitia assim um esgotamento dessa condição, que levaria à contradição de si mesma.

Pode ser que, como Marx (*), Foucault esteja errado, isto é, que a contradição não gere um outro homem muito diferente do que existe, que isso seja apenas a evidência de um espírito do tempo que, como o próprio nome diz, é passageiro. Contudo, faz-se necessária uma análise, independente das circunstâncias em que esse homem se encontre.

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(*) Nos referimos à idéia que Marx defendia a respeito da contradição  no sistema capitalista.

espetacularização do eu

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Para quem não conhece, a autora Paula Sibilia desenvolveu uma tese acerca do homem contemporâneo como um indivíduo que necessita “aparecer” seja de que forma for. Ela chega a essa conclusão basicamente partindo do pressuposto de que com o surgimento de tecnologias como a Internet, o “Eu”, a subjetividade foi sendo mudada de maneira significativa.  A espetacularização (termo que tem origem em Guy Debord na sua obra A Sociedade do Espetáculo) do Eu está cada vez mais presente na sociedade, cuja marca maior é justamente essa manifestação e exposição exarcebada de um “Eu” que constrói a si mesmo nas relações que estabelece.  Usando biografias, reality shows da tevê, blogues na internet como exemplos, Sibilia estabelece parâmetros que acabam por legimitar a sua idéia.

O que mais nos interessa, contudo, é a forte influência do pensamento debordiano. A sua noção de uma Sociedade do Espetáculo se confirma cada vez mais. Debord já enxergava que a sociedade é capaz de “criar seus pressupostos” a partir de cada época. Mas a sua tese reside principalmente no fato de que, independente do tempo, essas relações estabelecidas não são relações “genuínas”, são relações que têm como meio-termo imagens.  Nas palavras de Debord:

O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.

Esse é um ponto importante, pois através dele o autor realiza uma contraposição entre a comunicação (*) (aqui podemos fazer alusão aos mass media e aos outros elementos atuais – ao quais nós já remetemos anteriormente) e o diálogo. A comunicação seria, nesse caso, representada por um bombardeio de informações, do qual não se segue, pelo menos não necessariamente, o conhecimento da realidade – com todas as suas divisões, contrariedades, contradições. A comunicação é aquele espaço onde as diferenças e as divisões não são trabalhadas, porque se elas fossem colocadas em pauta a lógica do Espétaculo seria violada. Logo, elas surgem como um fenômeno no qual é constituída uma unidade, mas essa unidade não tem consciência de si mesma, isto é, da sua constituição. O diálogo seria uma troca verdadeira, em que a divisão é consciente e tende a ser unitária. Ou seja, a sociedade do espetáculo, fortemente marcada pela comunicação, nesse sentido a que nos referimos, coloca as contradições de classe, cor, credo, raça etc como aparentes, como se não tivessem importância. Podemos imaginar isso nas relações que existem em reality shows, na internet, no que é exposto em jornais e revistas, etc, onde as pessoas aparecem como alheias à essa divisão, pois se essa divisão fosse denunciada ocorreria um impedimento nesse contato entre as pessoas. Contato que justamente esconde as contradições – como preconceitos, por ex. Sabemos que o espetáculo exige isolamento e esses elementos – ou pressupostos – da comunicação cumprem bem essa função de isolar, alienar, massificar.

O espetáculo reúne o separado, mas reúne como separado.

É muito fácil ao enxergarmos na tevê, nos reality shows, na internet a comunicação que é travada entre aparentemente iguais, é uma postura muito cômoda interagir assim, ter acesso ao real desta forma.  É por este motivo que compramos essa idéia, a idéia de que a liberdade realmente existe nessas formas que encontramos para nos comunicar.

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(*) Essa comunicação, na verdade, é entendida como uma falsa comunicação, mas aqui nos utilizaremos do termo comunicação apenas.

Continua…

ademonista

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Novamente insistimos nessa atitividade boba que é manter um blogue. Mas agora a narrativa será um pouco diferente.

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