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espetacularização do eu

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Para quem não conhece, a autora Paula Sibilia desenvolveu uma tese acerca do homem contemporâneo como um indivíduo que necessita “aparecer” seja de que forma for. Ela chega a essa conclusão basicamente partindo do pressuposto de que com o surgimento de tecnologias como a Internet, o “Eu”, a subjetividade foi sendo mudada de maneira significativa.  A espetacularização (termo que tem origem em Guy Debord na sua obra A Sociedade do Espetáculo) do Eu está cada vez mais presente na sociedade, cuja marca maior é justamente essa manifestação e exposição exarcebada de um “Eu” que constrói a si mesmo nas relações que estabelece.  Usando biografias, reality shows da tevê, blogues na internet como exemplos, Sibilia estabelece parâmetros que acabam por legimitar a sua idéia.

O que mais nos interessa, contudo, é a forte influência do pensamento debordiano. A sua noção de uma Sociedade do Espetáculo se confirma cada vez mais. Debord já enxergava que a sociedade é capaz de “criar seus pressupostos” a partir de cada época. Mas a sua tese reside principalmente no fato de que, independente do tempo, essas relações estabelecidas não são relações “genuínas”, são relações que têm como meio-termo imagens.  Nas palavras de Debord:

O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.

Esse é um ponto importante, pois através dele o autor realiza uma contraposição entre a comunicação (*) (aqui podemos fazer alusão aos mass media e aos outros elementos atuais – ao quais nós já remetemos anteriormente) e o diálogo. A comunicação seria, nesse caso, representada por um bombardeio de informações, do qual não se segue, pelo menos não necessariamente, o conhecimento da realidade – com todas as suas divisões, contrariedades, contradições. A comunicação é aquele espaço onde as diferenças e as divisões não são trabalhadas, porque se elas fossem colocadas em pauta a lógica do Espétaculo seria violada. Logo, elas surgem como um fenômeno no qual é constituída uma unidade, mas essa unidade não tem consciência de si mesma, isto é, da sua constituição. O diálogo seria uma troca verdadeira, em que a divisão é consciente e tende a ser unitária. Ou seja, a sociedade do espetáculo, fortemente marcada pela comunicação, nesse sentido a que nos referimos, coloca as contradições de classe, cor, credo, raça etc como aparentes, como se não tivessem importância. Podemos imaginar isso nas relações que existem em reality shows, na internet, no que é exposto em jornais e revistas, etc, onde as pessoas aparecem como alheias à essa divisão, pois se essa divisão fosse denunciada ocorreria um impedimento nesse contato entre as pessoas. Contato que justamente esconde as contradições – como preconceitos, por ex. Sabemos que o espetáculo exige isolamento e esses elementos – ou pressupostos – da comunicação cumprem bem essa função de isolar, alienar, massificar.

O espetáculo reúne o separado, mas reúne como separado.

É muito fácil ao enxergarmos na tevê, nos reality shows, na internet a comunicação que é travada entre aparentemente iguais, é uma postura muito cômoda interagir assim, ter acesso ao real desta forma.  É por este motivo que compramos essa idéia, a idéia de que a liberdade realmente existe nessas formas que encontramos para nos comunicar.

—-

(*) Essa comunicação, na verdade, é entendida como uma falsa comunicação, mas aqui nos utilizaremos do termo comunicação apenas.

Continua…

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