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espetacularização do eu (2)

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Voltando ao tema abordado no último post

Ao fazer uma conclusão acerca de uma condição em que as pessoas não são livres, temos como objetivo denunciar que essa experimentação que o Eu faz enquanto subjetividade carece de uma fundamentação. Melhor dizendo, o “Eu” não reflete sobre a sua postura em relação aos fatos, em relação à esfera de sentido na qual ele está inserido. A experimentação que ele faz na construção da sua própria subjetividade, na realidade, não é autônoma, não é livre. Liberdade, nesse caso, não é simplesmente fazer o que se quer. Aqui fazemos referência às filosofias da liberdade – ou Idealismo Alemão -, principalmente à filosofia de Hegel.

Para Hegel, um filósofo moderno, uma das exigências dessa liberdade é sair do campo formal, pois a liberdade efetiva não se reduz a um caráter de “ser livre” no pensamento. Ora, essas subjetividades não podem ser livres, pois falta-lhes justamente esse reconhecimento próprio no campo social, através do qual os sujeitos se afirmam porque conhecem a verdade das suas relações, isto é, as diferenças e divisões sobre as quais já falamos.

Trazendo Hegel para a discussão contemporânea, imaginamos a força da uma afirmação sua em uma passagem da obra Princípios da Filosofia do Direito que preconivaza um estado no qual os homens poderiam ser substituídos por máquinas. Mas isso ele falava em relação ao trabalho, agora imaginemos o alcance dessa afirmação em relação às condições atuais. Ou melhor, ilustremos com outra afirmação mais recente (1968), uma citação que Sibilia faz em sua obra:

Daqui a uns poucos anos, o homem será capaz de se comunicar de forma mais efetiva através de uma máquina do que face a face. (J.C.R. Lincklider apud Sibilia)

Isso implica que o homem não estabelece mais relações em função das suas necessidades básicas. Ou, visto de outra forma, as necessidades básicas do homem já são outras.

A alienação e a massificação são entendidas aqui como exemplos de estratégias humanas para velar, esconder, nessa comunicação, o real propósito de cada um: a satisfação de seus desejos individuais, sejam eles quais forem.

A falta de consciência representa o desprezo pelo social, pela estrutura, pela unidade. O diálogo seria uma ferramenta de resgate desse organismo social, enquanto elemento fundante dessas relações – em contraponto ao isolamento. Para tornar mais claro, o isolamento a que nos referimos ou a união “forjada” que é estabelecida na comunicação são exemplos que mostram que indivíduos não refletem sobre suas maneiras de satisfazer os desejos, sobre o valor das suas necessidades, e pior: não são capazes de imaginar o social, o todo, a unidade e  as implicações que ocorrem a nível de sociedade nessas escolhas pouco fundamentadas, irrefletidas. Aqui fazemos alusão ao investimento pesado que indústrias fazem para simular “necessidades”, à lógica do mercado, ao consumismo.

Novamente a nível de ilustração, fazemos referência a Foucault que, no final da sua obra A palavra e as coisas, afirma que o Homem é uma invenção recente, mas que já está em vias de desaparecer. Foucault admitia assim um esgotamento dessa condição, que levaria à contradição de si mesma.

Pode ser que, como Marx (*), Foucault esteja errado, isto é, que a contradição não gere um outro homem muito diferente do que existe, que isso seja apenas a evidência de um espírito do tempo que, como o próprio nome diz, é passageiro. Contudo, faz-se necessária uma análise, independente das circunstâncias em que esse homem se encontre.

—-

(*) Nos referimos à idéia que Marx defendia a respeito da contradição  no sistema capitalista.

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