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espetacularização do conhecimento

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Arthur Schopenhauer

Arthur Schopenhauer foi um filósofo que herdou elementos fundamentais da filosofia kantiana, mas nem por isso é hoje considerado um idealista alemão, ao lado de seus “contemporâneos” Fichte, Schelling e Hegel. Sua recusa a toda e qualquer forma de deturpação da filosofia kantiana, a qual ele julgava entender melhor que todos, é evidente. Todavia, mesmo com toda fé no Idealismo Transcendental kantiano, ele foi mais longe, construindo até seu próprio sistema, que pode ser entendido basicamente a partir das seguintes áreas: teoria do conhecimento, ontologia, ética e estética. Áreas essas que nem sempre são compreendidas como constuitindo um todo coerente.

Estas considerações introdutórias são necessárias para situar o pensador, mas o que nos interessa aqui, por hora, é tecer comentários acerca da visão de Schopenhauer a respeito da filosofia universitária e seu “espetáculo do conhecimento”. Comentários que são baseados em aspectos isolados de sua obra capital.

Já no prefácio à segunda edição de sua obra principal, O Mundo como Vontade e como Representação, o autor avisa que sua obra não foi feita para os seus contemporâneos ou compatriotas, mas para a humanidade. Esta declaração evidencia o valor de uma obra filosófica para Schopenhauer e que, de certo modo, não se reduz a um caráter histórico. Na época, não muito diferente de hoje, a filosofia universitária tinha muito valor, ou melhor, o ambiente acadêmico, mesmo que ele sempre fosse “permeado” por incoerências.

Schopenhauer & o contexto atual.

Nos deparamos com pessoas que, como autor denunciava, querem viver da filosofia, isto é, estas pessoas são sofistas contemporâneos que, de maneira apressada e pouco cuidadosa, lêem tratados filosóficos e já começam a falar a respeito como se fossem especialistas. Falta-lhes o reconhecimento de um pressuposto básico paa a compreensão de clássicos filosóficos que, diferentemente do trabalho dos picaretas, exigem uma atenção especial. Este pressuposto é justamente a maturidade intelectual.

Como Kant, o autor se interessava mais por um exercício que garantisse com que as pessoas não ultrapassassem os limites do conhecimento, cometendo assim erros. Mesmo que com isso fosse exigido das pessoas a abdicação de bengalas ou fantasmas, como a metafísica, pois, como lembra Kant em sua Crítica da Razão Pura, mesmo quando não havendo ampliação do conhecimento, já é de grande valor não criar quimeras.

Contra dois dos principais aspectos da filosofia idealista alemã, sejam eles a intuição intelectual e a dialética, Schopenhauer dirige suas críticas. Para ele, esses dois elementos violavam a lógica da arquitetônica kantiana. Pobre Arthur, não foi capaz de prever a que condições decadentes a filosofia poderia alcançar.

Se Schopenhauer conseguisse antever o caráter sectário que iria estar presente na academia, com certeza escreveria mais ainda xingamentos contra a demência dessa sofistaria. A justificação que se dá hoje para a produção de trabalhos feita por um acadêmico de filosofia no Brasil, por exemplo, é baseada na idéia de que, enquanto cientistas, esses intelectuais devem “atualizar” os seus saberes. Ocorre que esquecem-se do que já colocamos anteriormente: a necessidade de maturidade intelectual para investigações e estudos mais sérios. Infelizmente, correndo contra o tempo e desejando alimentar a si mesmos e aos seus familiares, os “filósofos” contemporâneos vêem-se obrigados a se submeter a essas regras, que são apenas uma dentre as várias expressões do empobrecimento intelectual do  sistema universitário.  Com produções de baixa qualidade e que, de forma alguma, são reflexo de um trabalho mais profundo, esses acadêmicos vivem isolados em uma ilha da ilusão. Essa ilha pode ser traduzida como um momento que sempre vem à tona, principalmente porque os indivíduos tentam buscar um sentido para tudo isto. Neste sentido, Schopenhauer se faz atual. No seu primeito livro de O mundo…, ele denunciou que determinadas posturas, como a realista e a idealista já conduziriam a um estado no qual o conhecimento estaciona. (*)

O realismo põe o objeto como causa, e o efeito dele no sujeito. O idealismo fichtiano faz do objeto um efeito do sujeito. Como, entretanto – no que nunca é demais insistir -, entre sujeito e objeto não há relação alguma segundo o princípio de razão, segue-se que nem uma nem outra das duas afirmações pode ser comprovada, e o ceticismo faz ataques vitoriosos a ambas.

De acordo com Schopenhauer, esses falsos problemas ou falsas pressuposições acerca da realidade do mundo exterior acarretam no ceticismo. Para ilustrar, colocamos esta crítica schopenhaueriana, mas o que nos interessa, contudo, é a extensão desses erros na atualidade, tempo onde a filosofia se assemelha mais a um palco em que há estréias de diversos espetáculos. “Qual a sua área de atuação?”, pergunta comum feita hoje que já serve de parâmetro para a decisão por um diálogo. É como se, de acordo com o exemplo de Schopenhauer, um realista não quisesse conversa com um idealista fichtiano, e ambos, em vez de enxergar os próprios problemas de seus sistemas – que já não abarcam a realidade sobre a qual pretendem teorizar-, quisessem apenas defender a sua teoria e ir contra a do outro de forma veemente. A filosofia, ao invés de ser colocada como busca, é banalizada; inclusive, pode ser vista mais como conflito entre partidos ou brigas de torcidas. Como se não bastasse, quando há um encontro “formal” entre eles, parecem mais feiras ou Workshops, através dos quais comerciantes expõem seus saberes e tentam encontrar quem compre suas teorias.

Na situação em que nos encontramos, é fácil concordar com o autor da obra O vazio da Máquina, que exprime a nossa condição em relação à filosofia da seguinte forma:

Como fomos tolos, como tardamos em descobrir que o jardim secreto da filosofia é o hospício daqueles que acreditam no conhecimento, na profundidade do conhecimento.

(*) As críticas feitas por Schopenhauer são específicas, porém nos utilizamos aqui como exemplos que servem para exibir problemas no tocante à falta de reconhecimento dos indivíduos em relação às diversas esferas do saber.

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