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do viés literário, por um sarcasmo cético: “a queda”

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Voltando ao post em que fizemos um esboço acerca do ceticismo, nos utilizaremos de uma obra em que é desenhado todo um perfil em cima da condição de um cético que, ao invés de ser indiferente ao real, consegue modificá-lo à sua maneira. Na obra “A queda”, Albert Camus nos apresenta um cidadão que, de tanto conhecer a realidade, acaba por saturar-se. Diante disto, o indivíduo apresenta sinais de desprezo por todos os fatos. É notável que o autor traça esse perfil tendo em vista uma paródia, uma espécie de deboche para com os nossos valores e costumes. Podemos dizer isto porque nos identificamos com o que é ali registrado, com a diferença de que não somos livres o suficiente para denunciar a nossa própria falta de crença em relação às nossas experiências.

Partimos então para a exposição e comentário de alguns pontos interessantes da obra.

Sobre o jogo de interesses:

Deve achar isto pueril. No entanto, talvez houvesse uma razão mais séria para estas brincadeiras. Eu queria perturbar o jogo e sobretudo, sim, destruir esta reputação lisonjeira que, só de pensar, me enchia de furor. “Um homem como o senhor…”, diziam-me, com boas maneiras, e eu empalidecia. Nada queria da sua estima, já que não era geral, e como poderia ser geral, uma vez que eu não podia participar dela? Nesse caso, mas valia recobrir tudo, julgamento e estima, com um manto de ridículo. Precisava libertar de qualquer maneira o sentimento que me asfixiava.

Ora, nesse momento há uma referência ao jogo de interesses que fazemos em sociedade e que, em vias extremadas, leva ao desespero de descaracterizar as próprias relações, levando-as ao ridículo. Ignora-se a subjetividade à qual se dirige apenas por fazer elogios esquematizados, diretos, interessados, e, por isso mesmo, falsos, descartáveis, em suma, de uma esterilidade gritante. Pelo menos para quem se mantém numa condição através da qual a sua integridade permanece inviolável.

Do incômodo:

Ao renovar estes rompantes amáveis, consegui desnortear um pouco a platéia. Não desarmá-la, nem, sobretudo, me desarmar. O espanto que eu encontrava, geralmente, nos meus ouvintes, o seu embaraço um pouco reticente, bastante parecido com o que o senhor mostra – não, não proteste – não me trouxeram paz alguma. Como vê, não basta nos acusarmos para sermos declarados inocentes, nesse caso eu seria um cordeiro imaculado.

Aqui o autor exprime o incômodo gerado simplesmente pela postura de negação, recusa, à qual nos referimos. Incômodo este que poucas vezes é velado, pois as pessoas, em consenso, preferem reagir não com o exercício do pensamento que faz manobras para tentar facilitar a compreensão, mas através da preguiça. A alienação, ou estado no qual o indivíduo se priva do entendimento da realidade na qual ele está inserido, é apenas uma dessas formas de afastamento a qual  o indivíduo costuma recorrer quando encontra algo diferente do que conhece, ou melhor, do que pensa conhecer.

Da falta de crença na profundidade:

(…)nunca consegui acreditar profundamente que os assuntos humanos fossem coisas sérias. Onde estava a seriedade, isso eu não sabia, a não ser que não estava em tudo aquilo que via e que me parecia unicamente um jogo divertido ou importuno. Há, na verdade, esforços e convicções que nunca compreendi. Eu olhava sempre com um ar de espanto e com um pouco de suspeita aquelas estranhas criaturas que morriam por dinheiro e se desesperavam com a perda de uma “situação” ou se sacrificavam com grande ostentação pela prosperidade da família. Eu compreendia melhor aquele amigo que se tinha proposto nunca mais fumar e que, pela força da vontade, fora bem-sucedido. Certa manhã, abriu o jornal, leu que a primeira bomba  H havia explodido, informou-se sobre os seus incríveis efeitos e entrou sem demora numa tabacaria.

Novamente, é apresentado de forma evidente o espírito de sarcasmo e deboche para com aqueles que crêem na profundidade, ao invés de experimentarem apenas os momentos para os quais a finitude é a sua expressão, além de maior valor. A queda, nesse sentido, é a lucidez que reage à falta de sentido quando o fantasma da profundidade nos embriaga. Da mesma forma, se pode entender quando o autor faz um elogio à voz que já alerta para a clareza.

A clareza da própria situação:

A face de todas as minhas virtudes tinha assim um reverso menos impotente. É bem verdade que, em outro sentido, os meus defeitos revertiam em meu benefício. A obrigação em que me encontrava de esconder a parte viciosa da minha vida dava-me, por exemplo, um ar de frieza que se confundia com o da virtude, a minha indiferença proporcionava-me ser amado, o meu egoísmo culminava nas minhas liberalidades.

Mesmo o menos importante é recusado:

Sobretudo, não acredite nos seus amigos, quando lhe pedirem que seja sincero com eles. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios, ao lhes fornecer uma certeza suplementar, que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como poderia a sinceridade ser condição de amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. Portanto, se o senhor se encontrar neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Antenderá ao profundo desejo deles e provará duplamente a sua afeição.

Neste último ponto, é expressa uma condição limítrofe da postura cética, que já abdica inclusive de convicções mais basilares, por pensar que as mesmas também deturpam ou impedem de enxergar o que se tem diante de si.

Por último, temos a chave de leitura que encontramos para esta novela. Ei-la:

Para deixar de ser duvidoso é preciso, pura e simplesmente, deixar de ser.

Uma resenha que considero interessante, para quem já leu a obra ou pretende conhecer.

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  1. opatriarcacontemporaneo

    Bom dia, Ademonista :)

    Estive no Rio semana passada e assisti uma peça (um monólogo) interessante baseada no Camus: “O Estrangeiro”, com ator Guilherme Leme e Diretora, Vera Hortz (?). Muito legal:se puder ver, vale a pena.

    Abs:)

  2. Difícil acontecer qualquer coisa assim em Fortaleza, hehe.

  3. opatriarcacontemporaneo

    Fortaleza?? Oh! Legal: ao menos tens praias, como a Praia do Futuro …

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