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o que aprender com kant

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Freqüentemente nos deparamos com objeções ao pensamento kantiano. Muitas vezes o incômodo em relação a ele se dá no campo da ética, cujo julgamento comum reside na idéia de que seu formalismo é incapaz de apreender as nossas intuições. Por outro lado, no campo teórico da razão pura e em relação aos seus limites, muitos se prendem às idéias comumente divulgadas que representam as seguintes sugestões:

1) seu sistema parte de pressupostos não-demonstrados (a idéia de que exista um conhecimento válido), o que ocasiona uma circularidade ou regresso ao infinito;

2) tendo como base 1), chega-se à conclusão de que a lógica é dedutiva (condicional) e, se é dedutiva, então não pode gerar um conhecimento necessário (transcendental).

Tendo-se em mãos as afirmações acima, de maneira usual, surgem questões a respeito da irreflexibilidade de Kant, que julgou determinar “a possibilidade, os princípios e a extensão de todos os conhecimentos a priori“. Segundo esses críticos, Kant entra em contradição – neste caso, contradição performativa – ao fundamentar o conhecimento a partir de bases próprias do sujeito. A questão, a partir do referido ponto, passa a grativar em torno da concepção do lugar onde Kant “inscreve” a sua fundamentação: a mente do indivíduo.

Avaliando o sentido da estrutura, a que Kant se refere como “limitada”, nós nos deparamos com a contraposição entre duas realidades: a do fenômeno e a do nôumeno. Pois bem, é comum encontrar considerações acerca da segunda realidade como se Kant tivesse atribuído a ela outro sentido além do negativo – aquele em que é estabelecido um limite. Mesmo o autor colocando esta idéia presente em todo momento com o intuito de alertar para o fato de que a razão por si só tem o desejo de extrapolar os limites do seu conhecer, insiste-se em uma separação entre essas realidades com significação positiva. Talvez isso ocorra porque as pessoas sentem necessidade de “minar” a coerência do sistema, e, para isso, alegam simplesmente essa característica da razão: a tendência que ela tem para sair do campo da experiência – como se essa característica fosse garantia de coisa “alguma” no campo do saber.

Pergunta-se, sobretudo, a respeito das bases em que Kant coloca a sua problemática. Pergunta-se a um kantiano: “como pode você crer em algo que existe para além do próprio conhecer?”

Se analisarmos com calma, podemos chegar a conclusão de que o que está para “além” da consciência não é algo que deve ser preenchido, não é algo que – dito de outro modo – deve ser violado e, sobretudo, não é algo velado. O limite é simplesmente uma forma de admitirmos que o nosso acesso às coisas não se dá de maneira plena. Nesse sentido, convém afirmar que o próprio “Eu”, a própria subjetividade não é capaz de violar as suas leis da consciência, por exemplo. A realidade do “nôumeno” não limita o nosso conhecimento das coisas mais do que o conhecimento de nós mesmos. Kant diz:

Verdade ou ilusão não estão no objeto, enquanto intuído, mas no juízo sobre ele, enquanto é pensado.

Isto quer dizer que o problema não está na condução que damos aos conteúdos que já experenciamos, mas na idéia de que podemos ultrapassar as condições através das quais eles se apresentam, conhecendo-as  e superando-as.

O pressuposto da apreensão das coisas (substâncias), em especial, é que para elas não há prova, porque faz-se necessário trabalhar com analogias; neste caso, são representadas pelas formas que as nossas ferramentas categoriais – que temos inseridas nas nossas mentes –  julgam os conteúdos.  Isto é, os conceitos ou abstrações que usamos ao tentar abarcar o conteúdo que nos é oferecido é de fundamental importância, e essa é uma das maiores lições kantianas.  Pensamos analogicamente, dependendo de condições, recusamos os objetos em si mesmos, mas conseguimos produzir conhecimento, pois o que “vem de fora” (de fora das nossas consciências) é que deve ser adaptado às nossas estruturas, e não o contrário!

O juízo vem acompanhado de um poder: o de conferir objetividade à realidade.

Nesse sentido, o problema ao qual Kant faz referência não é o pensar, mas sim o julgar errado; não é tendência que temos a transcender aquilo que vivenciamos, mas confundir o pensamento com o conhecimento de algo. Podemos ver que quando Kant faz uma crítica, por exemplo, aos metafísicos, aos cosmólogos e aos psicólogos é com o sentido de dizer que eles não possuem um “acesso especial” à realidade; como se tivesse algo atrás da cortina do que se apresenta fenomenicamente  pronto para ser “descoberto”.

O que Kant, na verdade, expõe, e que podemos considerar importantíssimo, é que do mesmo modo que podemos  e devemos admitir as exigências da razão – de pensar em questões como liberdade, Deus, alma -, deveríamos também entender que o conhecimento e o modo de conferir objetividade aos conteúdos requer condições, condições essas que são admitidas da mesma maneira que admitimos as estruturas da nossa mente e suas limitações – como ex: a dificuldade de se imaginar um círculo quadrado, ou um objeto qualquer contraditório.

Assimilando o pensamento kantiano, nós ganhamos algo não apenas no sentido negativo, mas possitivo: o progredir no conhecimento. Segundo ele, sem admitirmos as estruturas “a priori”, podemos dizer o que quisermos, mas isto não terá valor nenhum. E isso já um bom começo, pois os limites impedem que percamos o nosso tempo com objetos, “conhecimentos” e “saberes” que de maneira nenhuma seríamos capazes de provar.

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  1. Pingback: entendimento versus razão « Ademonista

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