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Filo o quê?

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Incansavelmente as pessoas tentam definir o que seja Filosofia. Melhor dizendo, a função de um filósofo. Por mais que possamos partir do pressuposto que o significado para a palavra Filosofia seja amplo e sempre reatualizável, podemos tentar encontrar algumas bases que sirvam de parâmetro para uma possível investida filosófica.

Eu particularmente fico incomodada com certas observações acerca do caráter dito filosófico, mas fico mais ainda incomodada com o péssimo uso que fazem da Filosofia – enquanto uma vasta fonte de saberes – em virtude de abordagens limitadíssimas, por serem extremamente funcionais, esquematizadas e incapazes de serem compreendidas como um “conjunto de idéias”.

Obviamente, uma pessoa que é apta ao discurso de “natureza” filosófica consegue usar a Filosofia como um instrumento que acione as intuições dos seus interlocutores. E, na medida em que consegue ir mais a fundo na condução desses conteúdos que valorizem essas percepções do outro, obtém sucesso na execução de seus planos.

Depois dessas considerações, vamos aos fatos. Encontrei o seguinte texto “Um tradutor, por favor!!!“, e vi uma observação bem pertinente sobre a qualidade de determinados discursos. Lendo o texto que foi criticado, percebo uma certa incoerência presente nele que não condiz com o espírito livre da Filosofia. Melhor dizendo, a Filosofia, mesmo na sua condição privilegiada relativa a um dos  campos teóricos mais antigos ainda existentes, nunca se rendeu a certas práticas que tendem a torná-la estéril,  e isso se dá justamente devido a uma de suas maiores exigências: a conceituação.

O uso do discurso filosófico remete à conceituação, à problematização referente aos conceitos e não necessariamente se submete à análise de objetos factuais. A Filosofia, nesse sentido, pergunta sobre o que é verdade, sem se subordinar à esfera na qual os fatos se colocam. Por isso, via de regra, o que se coloca como mais importante na filosofia é o caráter necessário, diferente das ciências, que se particularizam em determinado tempo porque estudam objetos específicos. Em suma, a legitimação da Filosofia se dá no campo conceitual e toda articulação de discurso deveria partir desse pressuposto.

Por outro lado, alguns pensadores reivindicam outros aspectos, como Marx, que tentou definir a hora dos filósofos agirem. Vi a consideração do Luis Fernando Verissimo a respeito disso e confesso que achei interessante. Contudo, é apenas uma tentação nossa pensar que a Filosofia deve caminhar nesse passo:  servindo aos nossos interesses  – sejam eles políticos, econômicos, ideológicos, etc. Obviamente que Marx tinha um objetivo bem definido, que era usar o discurso filosófico como conscientizador, no caso, conscientizador da real condição do proletariado para depois capacitar todos em virtude de uma prática interventora. Mas dizer que a Filosofia passaria, a partir de então, a ter essa função específica, parece-me equivocado.

A Filosofia não deve renegar o “chão” fornecido pelos fatos – isto é, a segurança -, nem Hegel quis isso. Todavia, faz-se necessário pensar que esse não é o lugar onde a Filosofia reside, pois o maior interesse dela necessariamente sugere uma fundamentação diferente. Nesse sentido, concordo muito mais com a visão dos idealistas alemães, que propuseram-na como um lugar mais “elevado”. Bem, nesse caso, remeto especialmente a Fichte e Hegel. Fichte na sua Introdução à Teoria do Estado compreende a Filosofia mais como um estado que nos revela um nova visão de mundo ou, melhor dizendo, o mundo de uma visão de mundo – nesse caso, em contraponto ao saber comum. Podemos entender que essa visão é sustentada por um “eu” que age, mas, salvaguardado esse detalhe, nos aproveitamos da consideração fichtiana para defender que essa estrutura proposta não obedece ao saber comum, ao que simplesmente pode ser experenciado; pelo contrário, ela é um saber particular, que não se rende totalmente a um conteúdo que vem de fora.

Em Hegel, quando ele afirma que a Filosofia sempre chega muito tarde para “dizermos algo mais sobre a pretensão de se ensinar como deve ser o mundo”, é porque ele entende a importância da paciência do conceito. O conceito não é gerado numa pressa, ele precisa se desapegar dessas respostas imediatas oferecidas aos fatos pelo pensamento simples para conduzir as coisas de outra forma, reconstruindo-as sobre outra base. Por isso Hegel diz que a Filosofia é uma Filosofia de “reconhecimento”. Não sei até que ponto Marx ou os marxistas erraram, pois sempre quando concebo as considerações hegelianas referentes às mudanças, penso numa crítica – aliás, muitos defendem que Hegel só não utilizou esse nome “crítica” porque seus predecessores já  haviam usado e, nesse caso, preferiu não se apropriar do termo – , porém,  numa crítica que não ensina exatamente como deve ser, mas estabelece parâmetros para analisar o que está posto se e se somente se tomarmos os conteúdos em uma perspectiva conceitual, melhor dizendo, se se abdica da particularidade dos fatos. Um dos pontos coerentes, se é que podemos nos referir a ele assim, da teoria hegeliana é que ela oferece uma “margem de erro” nas teorias – que não é oferecida pelas teorias observacionais – ao implicar a contradição dentro do sistema. A contradição admitida na vida faz com que o conceito seja mais correto ao falar do real, em certo sentido.

Analisando melhor todas essas condições, podemos chegar a um consenso sobre as questões: a Filosofia é, acima de tudo, um campo de reflexão. Se ela cumpre esse papel de suscitar nas pessoas esse hábito através de discursos, então já é um começo. (Assim sendo, podemos “salvar” o texto criticado em certo sentido). É por isso que a considero como um saber auto-fundante; ela funda o saber – desde os tempos mais remotos -, o saber de outros campos teóricos e o saber de si mesma. Inevitavelmente passamos a concluir que ela é absoluta, isto é, independente de todas as tentativas de limitá-la, seja através de descrições, seja submetendo-a aos fatos, seja tornando-a “funcional”, ou de qualquer outro modo.

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  1. Pingback: as angústias desse meu filosofar « ademonista

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