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A fragilidade das nossas expectativas sobre o tempo

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Hand with Reflecting Sphere

É interessante entrar em contato com considerações acerca da inserção da tecnologia em nossas vidas, mas, mais interessante ainda é quando somamos, numa discussão, as nossas intuições sobre o tempo.

O tempo é uma das questões que perpassa não só toda a história da filosofia, mas, via de regra, todos os campos do saber. Não é à toa que, junto à Mecânica Quântica, por exemplo, várias teorias se manifestam nesse sentido.

Lembro que apresentei, há um bom tempo, um trabalho sobre os críticos do Iluminismo, que seriam Marx, Nietzsche e Freud. Foi bem valioso perceber que, nesse período moderno, vários pensadores – incluindo Darwin – inverteram de tal forma a ordem de pensamento que são conhecidos hoje como aqueles que feriram “narcisicamente” a sociedade. Expondo as “fraquezas” da razão, cada um à sua maneira, eles expuseram o erro que pode ser ocasionado pela (nossa) ingenuidade latente.

Pois bem, nessa mesma época, eu lia Nietzsche, e no seu Zarathustra encontrei uma resposta para os mais variados anseios (busca por valores, queda da razão, etc.), inclusive, o tempo era um deles. Não li o suficiente para afirmar com a base necessária sobre como se dão as considerações dele em termos gerais, mas, a nível de ilustração, posso dizer que a teoria do Eterno Retorno é uma das mais enigmáticas com a qual já tive contato.

Esse texto que fala sobre o poder da comunicação, assunto sobre o qual eu já falei anteriormente, me fez lembrar da contraposição entre culturas feita por Nietzsche. Nietzsche pensava a cultura como um elemento central da vida humana, obviamente ele tinha que tratar disso, já que iria traçar um perfil em cima da questão da massa – conceito que influenciou muita gente – como causa da decadência, quebra de valores (moral do rebanho) e, em seu ápice, o niilismo. Para isso, contrapôs as duas culturas: a “forte” e a “fraca”. Não é muito difícil entender isso a partir de problematizações atuais, por ex., e Nietzsche, na verdade, já antevia que uma das maiores marcas dessa cultura pobre, além do caráter de “rebanho mediocrizado”, é a velocidade através da qual as “novidades” são lançadas nela. Ele já dizia: “A cultura diminui a cada dia porque a pressa torna-se maior.” Esse é um ponto fácil de ser entendido sob o seguinte aspecto: Nietzsche falava de um processo no qual o homem se torna aquilo que ele é; logo, pela lógica do rebanho, ele seria impedido de ser o que é se comunga com os ideais de um organismo que negue sua subjetividade, sua singularidade. Não há espaço para a autenticidade nesse organismo que institui todos os valores, pois a opressão fala sempre mais alto.

O que interessa é o seguinte: será que, além das religiões, das academias, e de instituições outras, os lugares ou modos-de-ser dessas comunicações atuais não são outras formas de aprisionar nosso corpo, nossas mentes, nossa criatividade, enfim, nosso espírito?

Nietzsche já dizia no ensaio Da Redenção – presente em seu Zarathustra – que “a maldição de todo humano é essa loucura de haver aprendido a ter espírito”. Além disso, no mesmo lugar, ele diz que essa vontade “não pode querer para trás: não pode aniquilar o tempo e o desejo do tempo é a sua mais solitária aflição”. Como negar essa vontade que só deseja e deseja, como negar o poder da legitimação dessa vontade realizada pela comunicação, pela tecnologia, pelas máquinas de produzir desejos? Como ter espírito para a filosofia, para a arte e para a ciência se a criação foi banalizada? E, não menos importante, como  lembrar e como esquecer, já que o tempo se coloca como elemento importante em absolutamente tudo o que pode ser registrado espacialmente?

É aqui que se coloca a granada da teoria nietzscheana: o eterno retorno de si mesmo. Essa teoria consiste, em linhas gerais, numa repetição de tudo, de fatos, idéias, situações, onde as vivências não seriam autênticas. Tomando as coisas dessa forma, será que faz sentido procurar por um sentido, uma finalidade nisso tudo que vivemos? Nietzsche, como bem se sabe, iria contra toda a idéia fundante de um télos, isto é, um fim último para o que fazemos, então, pode ser que a sua idéia consista numa afirmação cada vez maior do valor da “finitude”, daquilo que experenciamos, em suma, das forças que temos ao afirmar a nossa vontade, a nossa criatividade. A instituição do  télos  – como exemplo, pelas religiões – seria aquilo que aprisionaria o homem, logo, de acordo com o pensamento nietzscheano, nós (ou cada em sua particularidade) é que devemos escolher se queremos ou não admitir um fim último em nossas vidas.

Mas como essas coisas todas ditas até agora se relacionam? Bem, no meu modo de entender, a formação cultural – tanto o processo em si mesmo como aquilo que o indivíduo apreende dele – seria natural. Sei, sei que os termos parecem se contrapor, mas afirmo uma naturalidade nessa evolução cultural, pelo menos, na evolução cultural permeada de significado, resultante dos elementos que já foram aqui colocados. Não me refiro à cultura de massa – a cultura que Nietzsche entendia como fraca – mas à cultura como esfera de sentido. Logo, a função que caberia ao crítico dessa cultura é alertar para a banalização ou moral de rebanho. Não no sentido moral, ideológico ou político, pois isso seria repetir os mesmos erros, mas com finalidade de exaltar a finitude.

No ensaio Da visão e do Enigma – ainda na mesma obra –, o autor diz: “Tudo quanto é capaz de correr não deve já ter percorrido alguma esta rua? Tudo o que pode suceder não deve ter sucedido, ocorrido, já alguma vez?” não sem antes ter falado: “Mas o valor, o valor que ataca é o melhor dos matadores; mata a própria morte, porque diz: “Quê? Era isto a vida? Então tornemos a começar!”

Apenas com esses dois pontos podemos fazer referência à coerência nietzscheana nos seus elogios à vida, à finitude.

Usando um trecho de um pensador que consegue ter críticas mais ácidas que Nietzsche, Emile Cioran, finalizo com uma alerta para um desses sentimentos que nos fazem ter uma visão lúcida dessa não-identificação com o que acontece. A possibilidade de ruptura com a realidade que nos aprisiona. Eis o tédio na visão de Cioran – em sua obra Breviário de Decomposição -,  que apesar de ele fazer referência ao tema pensando noutro sentido, eu me apropriei alegremente:

O tédio é apenas o começo desse intinerário…Ele nos faz sentir o tempo demasiado longo – inapto para revelar-nos um fim. Separados de todo objeto, não tendo nada que assimilar do exterior, nos destruímos em câmera lenta, já que o futuro deixou de oferecer-nos uma razão de ser.

O tédio nos revela uma eternidade que não é a superação do tempo, mas sua ruína; é o infinito das almas corrompidas por falta de superstições: um absoluto insosso onde nada mais impede as coisas de girar em círculos em busca de sua própria queda.

Continua…
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