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Conhecimento e fé em kant

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Nessa semana teve uma discussão bem interessante sobre ateísmo no blogue O Biscoito Fino e a Massa, do Idelber Avelar. Resolvi melhorar um pouco a minha idéia – comentada lá na caixa de comentários – sobre essa questão. Citei Kant porque penso ser um autor fundamental para entender o que, de fato, interessa na postura atéia – mesmo sabendo que ele não tocava nessa questão especificamente. O texto acabou se tornando mais um resumo – linhas gerais – do pensamento kantiano acerca dessas questões, então o publico mesmo assim, pois penso que é possível tirar uma conclusão razoável dele.
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kant

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É interessante perceber a importância de filósofos que, de alguma forma, tratam de questões que tenham algum fundamento prático. Isto quer dizer que, apesar de assuntos relativos ao conhecimento e seus limites serem predominantes, é importante reconhecer que elementos práticos são indispensáveis em qualquer teoria que pretenda realizar um progresso no conhecimento. Kant, sem sombras de dúvidas, foi um desses autores que marcaram a tradição filosófica justamente por pôr em pauta essas questões.

O pensador moderno que disse ter elevado o conhecimento para dar lugar a fé, além de ser conhecido por refutar as provas da existência de Deus, foi um indivíduo extremamente preocupado com a moral, consequentemente, com a liberdade humana e suas implicações sociais.

Dando atenção especial à obra que é hoje considerada como um dos monumentos da história da Filosofia, nós reconhecemos quais eram os propósitos deste pensador. Logo no prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura, ele disse que a perda que a razão especulativa iria sofrer – devido ao impacto da sua crítica – residiria no campo do monopólio das escolas, as quais, neste caso, “vendiam” teorias que prescreviam o modo como os homens deviam agir. Mas de maneira nenhuma essa perda iria afetar o interesse dos homens (ou aquele sentimento que mora nos corações deles).

Mas não é no começo da obra, nem na Estética, tampouco na Analítica Transcendental que ele iria demolir de vez esse monopólio das academias; e sim na Dialética Transcendental, seção na qual ele se dedica a tratar das ilusões inevitáveis de uma razão que tende a extrapolar os limites do seu próprio conhecer.

É nesse ponto que estão localizadas as inferências incorretas – ou dialéticas – da razão pura. No início, o autor afirma que tanto a verdade como a ilusão “não estão no objeto enquanto intuído, mas no juízo sobre ele, enquanto é pensado”. Esse é o lugar de partida para o caminho que visa esclarecer a problemática referente à tentativa de ultrapassar limites. A intuição de objetos deve ser entendida aqui como aquilo que experenciamos, aquilo através do qual se torna possível o conhecimento dos objetos (Vale lembrar que o conhecimento aqui referido não é dos objetos em si mesmos, mas enquanto eles se apresentam fenomenicamente).

O problema, no referido caso, diz respeito ao fato de que a razão humana tende a sair do resultado que ela obtém como fruto da experiência para um “lugar desconhecido”, que ela pensa ser não apenas possível, mas necessariamente existente. Esse “lugar” seria como uma unidade que resulta desses acontecimentos que aparentemente estão desconectados, mas que a razão insiste em encontrar um nexo, um fundamento que os conecte.

A necessidade que a razão humana tem de avançar no entendimento, isto é, de condicionado a condicionado até ao incondicionado – uma espécie de fundamento último – é incorreta, pois a razão não encontra justificação objetiva. Melhor dizendo, ela intui a partir de experiências singulares, julga que há uma unidade que existe “a priori” e justifica essa série – ou conjunto – de experiências, mas, quando é para encontrar essa unidade na realidade, ela não a encontra. Nas palavras de Kant, o processo se dá desta forma:

Vê-se a partir disso que a razão, ao inferir, procura reduzir a grande multiplicidade do conhecimento do entendimento ao número mínimo de princípios (condições universais), e deste modo produzir a suprema unidade.

Essa totalidade – ou incondicionado – que a razão humana tende a procurar pode ser identificada, resumidamente, a partir de três modos: através da psicologia racional, que visa a unidade incondicionada do sujeito pensante, a cosmologia racional, que visa a unidade absoluta das séries de condições do fenômeno (mundo) e a teologia racional, que é aquela que visa a unidade absoluta da condição de todos os objetos do pensamento em geral (o ente de todos os entes ou Deus).

Isto significa que o indivíduo tende a pressupor esse incondicionado. Ele não consegue avançar na série de condicionados – aqueles que são obtidos na experiência – a ponto de encontrar uma síntese absoluta dessa série, mas a admite como se ela existisse necessariamente. O problema, então, não está localizado na simples pressuposição, mas na idéia humana de que essa unidade pode ser conhecida.

Em Kant, essas inferências incorretas referem-se ao modo que os indivíduos encontram para, usando erroneamente os conceitos, avançar em suas “projeções”. Por exemplo, usando o conceito de substância na psicologia, o conceito de causalidade na cosmologia e comunidade na teologia.

Concentrando-se na questão relativa a Deus, nos deparamos com essa suposição de um ente dos entes, um ente absolutamente necessário. Nesse sentido, os indivíduos pensam satisfazer as suas especulações quando atribuem certas qualidades – finitas – a um ente supremo. Em relação a esses problemas, Kant faz uma exposição longa, mas clara, que serve especialmente para recorrer à razão e denunciar a incoerência de algumas fundamentações religiosas.

Com efeito, todas essas questões dizem respeito a um objeto que não pode ser dado em nenhum outro lugar a não ser em nosso pensamento, a saber, a totalidade absolutamente incondicionada da síntese dos fenômenos. Se a partir dos nossos conceitos não podemos dizer e estabelecer nada seguro a respeito, nem por isso nos é permitido atribuir culpa a coisa que se oculta a nós. Com efeito, semelhante coisa (por não se encontrar em lugar nenhum fora da nossa idéia)  não pode absolutamente ser dada, mas temos que procurar a causa da incerteza da nossa idéia.

A refutação às provas da existência de Deus é um capítulo à parte, onde Kant atenta mais ainda para implicações de inferências erradas, como aquelas fundamentadas na relação entre sujeito e predicado. Mas o que interessa aqui é apenas o alerta para a confusão de posturas. No caso, a correta seria aquela que tem em mente um método transcendental e não transcendente. Transcendental é aquele que amplia o nosso conhecimento ou, na pior das hipóteses, faz com que nós não nos percamos em erros. Ao contrário do segundo, que confunde o pensamento de algo com o seu conhecimento. O conceito de um ente dos entes é uma idéia regulativa – um artifício da razão humana –, mas que não amplia os nossos saberes.

Deus é um postulado da razão – algo admitido sem demonstração -, mas jamais deve ser tomado como objeto de conhecimento. Se os indivíduos aceitam isto, ótimo. Do contrário, podem falar o que quiserem, mas isto não tem valor algum, pois não pode ser provado. No fundo, é aquela velha máxima já conhecida: “pensamentos sem conceitos são vazios, intuições sem conceitos são cegas.” Alguns crentes pensam ter um acesso especial à realidade, a ponto de negarem a importância das intuições – que representam aqui a corroboração empírica, as provas -, mas eles não têm.

Continua

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  1. Daniel Christino

    Oi ademonista (esse “a” aí é artigo ou negação?), achei seu blog via Idelber e gostei muito. Seu texto é claro e bem escrito. É ótimo ler o que você escreve sobre um assunto tão espinhoso.

    Temo, entretanto, que você não vá encontrar guarida para seu ateísmo em Kant. Em primeiro lugar porque o cara era um pietista e nunca deixou de sê-lo. Em segundo lugar, porque a razão pura louca que ele engaiolou na primeira crítica escapou novamente na metafísica dos costumes – e na segunda crítica – por conta da idéia de liberdade e seu papel na fundamentação dos imperativos categóricos.

    Numa outra chave, dizer que Deus não pode ser conhecido pelo entendimento significa afirmar que não se pode derivar dele uma ciência. Assim se quisermos fazer da metafísica uma ciência devemos separá-la da teologia. Esse é o ponto para Kant. Aqui ele segue Newton. O inglês desprovido de senso de humor determinou as condições de verdade para os juízos científicos nos Princípios da Matemática: 1. Simplicidade; 2. Uniformidade; 3. Homogeneidade; 4. Verificabilidade (estar de acordo com a experiência). Ao mesmo tempo o velho Newton passava horas sobre o antigo testamento procurando interpretações matematizáveis da Palavra. A existência de Deus já havia sido revelada, era assunto hermenêutico e não epistemológico. O que não era o caso dos escolásticos. A melhor ilustração dessa confusão de planos (ou metabasis) é exatamente o argumento ontológico.

    Outra evidência, embora um tanto frágil, é a interpretação que alguns neokantianos – principalmente Cassirer – fizeram dos escritos de Kant, derivando deles uma antropologia filosófica cujo fundamento era a “abertura” do sujeito para a trasncendência. Isso está na Filosofia das Formas Simbólicas, do Cassirer, e na Antropologia Filosófica do Henrique Lima Vaz (um jesuíta mineiro muito interessante) embora este último se apóie muito mais em Hegel do que propriamente em Kant.

    É isso.
    Parabéns pelo blog.

  2. Daniel,

    o “a” significa negação.

    É, eu sei do problema em criar certas chaves de leitura para um assunto. Mas eu atentei apenas para o fato de que o maior problema, ao meu ver, está na raiz do conhecimento. Como eu falei para o Idelber, essa campanha ateísta – que, na verdade, não seria bem uma campanha na minha opinião – deveria ocorrer com propósitos bem delimitados e, neste caso, Kant é direto: na esfera geradora de conhecimento não há espaço para assuntos relativos à fé. Quanto a isso, penso que não discordamos, não é?

    Todavia, em relação ao “chão” da prática, onde está localizada a questão da moral, ele abre novamente o espaço – podemos ver isso nas duas obras às quais você se referiu – com uma significação diferente. Prentendo fazer algumas considerações no próximo post, por isso coloquei o “continua” no final. O que não quer dizer que haja um regresso na primeira crítica. Apesar de ele não oferecer essa fundamentação ateísta, a separação que ele fez entre entendimento e razão – coisa que, convenhamos, é, por muitas vezes, difícil de ser admitida – é importante.

    Quanto ao terceiro ponto, não leio neokantianos, ainda estou caminhando lentamente nas obras do mesmo. Mas, se eu entendi bem, concordo com essa disposição natural que o indivíduo tem para ir em busca de certos “abrigos” que desenvolvam respostas para questões como “finalidade”, “fundamento último”, etc.

    Obrigada pelo comentário, levarei muito em consideração o que você colocou quando for escrever o próximo post.

  3. Rodrigo Cássio

    Olá ademonista!

    Assim como o Daniel, também vejo dificuldade em fundamentar o ateísmo em Kant. Como postulado da razão prática pura, Deus é uma ideia reguladora. Em Deus é necessário acreditar, ainda que não seja necessário demonstrá-lo.

    Por outro lado, penso ser possível encontrar em Kant uma baliza razoável para o agnosticismo religioso, justamente por ser tratar, este, de uma posição sobre o conhecimento que, aos poucos, se consolidou sobretudo como uma posição relativa à crença em Deus (e por isso, afinal, costuma ser repudiado pelo ateísmo como uma falsidade).

    A esse propósito, há um trecho de Nietzsche que pode lhe servir na continuidade desse texto. É a seção 25 da terceira dissertação de “Genealogia da Moral”. Veja lá como ele fala, ao final dessa seção, de Kant e dos agnósticos! Pode render um bom desdobramento para a sua análise de Kant.

    O seu blog é muito bom. Parabéns!

  4. Sou ateu porque acredito na ausência de evidências.

    Gostei muito do teu espaço, cheguei aqui via Idelber. Vou assinar o RSS pra te ler sempre e com calma.

    Abraço.

  5. He will be Bach

    Meu pequeno “palpite”: Cara a-demonista (que eu jurava que fosse “A Demonista”), acho que seu ponto não é, propriamente, fundar o ateísmo em Kant. Pelo que entendi, você simplesmente quer deixar bem claro que a existência de Deus não pode ser “provada”. E, dado que parece não haver dúvida de que Kant acreditava em Deus, ele, ao escrever isso, estava “apenas” colocando as coisas nos seus devidos lugares – a César o que é de César -, no que concordo com o primeiro Daniel.

    O ateísmo é uma questão muito mais complicada, e tenho lá minhas idéias particulares sobre ele, especialmente, envolvendo o bigodudo e Dostoiévski; mas como estou com sono, vou deixar para escrever depois.

    Aquele abraço!

  6. Pingback: conhecimento e fé em kant (2) « ademonista

  7. Pingback: Kant Contra o Ateísmo | Diário Filosófico

  8. Antes de mais nada, ótimo blog, cheguei recomendado pelo HwbB.

    Eu acho que você (e o Kant; está em boa companhia) foram até onde dá pra ir com o conhecimento: até o ponto em que se admite que não dá para provar que Deus existe (mesmo se ele existir), ou que não existe (mesmo se não existir), que não se trata de matéria para conhecimento.

    Falando desse problema, do ponto de vista do conhecer, só se chega e não se sai do agnosticismo. Mas é claro que a mente tem mais recursos: pode se orientar pragmaticamente, através de auto-análise, emocionalmente, etc. E não há nada que proíba quem quiser tentar avançar sobre “The God problem” de alguma dessas formas, desde que não reinvindique a bandeira do conhecimento.

    Pessoalmente, acho que caras como o Dawkins tem um raciocínio ético sobre isso: admitir a verdade de algo que não pode ser provado (mais rigorosamente: testado)é trapacear, não é jogar limpo, porque aí não conseguiremos chegar a um acordo racional.

    Isso é um bom argumento para não misturar religião com política ou ciência, mas como discussão do God Problem, é fraco. Não há porque, em especial se você for darwinista, achar que a razão humana, que evoluiu para caçar mamute e plantar batata, deva fornecer os limites do ontologicamente possível.

    Enfim, bela discussão, belo blog.

  9. Sim, de fato, NPTO. Sabemos que as ciências jamais teriam em vista essa idéia atualmente. Essas considerações kantianas sobre substância, antinonomias, idéias regulativas, etc. já não cabem mais no debate atual. Inclusive, as próprias bases kantianas – as formas de conhecer – já foram re-visitadas por pensadores da própria filosofia. Saul Kripke é um deles.

    Mas é sempre bom trazer à tona esses debates. Principalmente porque precisamos amadurecer as nossas idéias e nossos modos de agir no mundo.

    Obrigada pelo comentário.

  10. He will be Bach

    “… a razão humana, que evoluiu para caçar mamute e plantar batata, deva fornecer os limites do ontologicamente possível.”

    HAHAHAHAHAHAHAHA!!!!
    Essa foi ótima!!

    Da próxima vez, exemplificarei deste jeito: “Você acha que os limites do ontologicamente possível se reduzem à caça de mamutes e ao princípio batateiro do Quincas Borba?”

  11. Interessante, já que eu costumo achar, acompanhando Pascal Boyer, que a religião existe justamente porque os limites do ontologicamente possível são de fato postos pela razão humana, que evoluiu para caçar mamute e plantar batata…

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