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Conhecimento e fé em kant (2)

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Se na esfera geradora de conhecimento não há espaço para assuntos relativos à existência de um ente supremo, então resta a esfera prática, onde a moral está localizada. Primeiramente, faz-se necessário observar que o ateísmo, para Kant, não é uma postura “correta”. Mas, como foi afirmado no post anterior, um ponto primordial para o ateísmo é a delimitação do conhecimento e, neste sentido, há algo a ser aproveitado na consideração kantiana.

Para entender a visão kantiana acerca dessas questões referentes à moral, especificamente, há duas obras principais: a “Crítica da Razão Prática” e a “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”. Já servindo de apoio à opinião geral do autor sobre a religião, há a obra “A religião nos limites da simples razão”. Além destas obras, aprecio bastante um ensaio chamado “Resposta à pergunta: Que é esclarecimento?” e outro chamado “Que significa orientar-se no pensamento?”.

Kant fundamenta a sua moral se utilizando de um alicerce bem forte, que é a autonomia da vontade. Segundo ele – para não correr o risco de usar artifícios que poderiam tornar essa vontade heterônoma – não há lugar melhor para inscrever essa autonomia da vontade que não seja a lei: lei que a vontade mesma “põe” e à qual ela deve se submeter posteriormente. Os costumes associados às leis representam esses princípios que norteiam a realidade a partir da razão mesma. Kant, para isso, se distancia do relativismo, do convencionalismo, do ceticismo, de todas as arbitrariedades (como sentimento moral, busca pelo prazer) ou fundamentos fora da razão (como a vontade de Deus). O que hoje entendemos por imperativo categórico (coisa que, aliás, muitas vezes é usada mais para confundir do que esclarecer) é apenas o resultado desses choques com outros fundamentos aparentemente insuficientes – aos olhos de uma crítica que visava corrigir o intelecto humano.

Aos olhos de Kant, mesmo sem dar espaço ao ateísmo de forma clara, a hipótese de uma existência divina não é suficiente para ser considerada como incondicionada; o que nos leva a compreendê-la também como uma arbitrariedade, ou, na melhor das hipóteses, algo que não satisfaz o caráter de uma regra. O valor moral da ação, para o autor, não pode depender do resultado, a partir disso, podemos compreender que no caso de tradições religiosas é difícil de ser posto em prática, devido aos seus postulados. Em suma, a razão, enquanto faculdade prática e que é capaz de influenciar a vontade, deve ter seu valor em algo que não esteja fora de si nem seja baseado em inclinações e arbitrariedades, mas em algo que tenha valor em si mesmo: o dever.

Nesse caso, a idéia de um ente dos entes só pode ser mais uma idéia regulativa. Na Fundamentação…, ele diz:

Mas donde é que nós tiramos o conceito de Deus como bem supremo? Somente da idéia que a razão traça a priori da perfeição moral e que une indissoluvelmente ao conceito da vontade livre. A imitação não tem lugar algum em matéria moral, e os exemplos servem apenas para encorajar, isto é, põem fora de dúvida a possibilidade daquilo que a lei ordena, tornam intuitivo aquilo que a regra prática exprime de maneira mais geral, mas nunca podem justificar que se ponha de lado o seu verdadeiro original, que reside na razão, e que nos guiemos por exemplos.

Quanto a isso, duas considerações. A primeira é: não adianta utilizar de simbologia ou exemplos para justificar a não-necessidade de uma lei moral. Isto seria uma perca enorme da razão, que, por sua vez, iria se guiar por exemplos, em vez de dar autonomia à vontade. Os exemplos são apenas aquilo que serve para encorajar a continuarmos seguindo no “bem”, uma espécie de apoio intuitivo, mas jamais uma regra. Segundo, nessa lógica, podemos compreender, com Kant, que a idéia de um ente supremo, tendo ou não origem a priori, vem desconectada da nossa capacidade de ter ações éticas. Aquela velha idéia de que um ateu não pode ser um indivíduo moral, portanto, é falsa. Um ateu não crê no conceito de um bem supremo e só. Ele é capaz de ter ações éticas como qualquer outro animal dotado de racionalidade.

Noutro ponto, ele diz:

Ora um tal Metafísica dos costumes, completamente isolada, que não anda misturada nem com a Antropologia nem com a Teologia, nem com a Física ou Hiperfísica e ainda menos com as qualidades ocultas (que se poderiam chamar hipofísicas), não é somente um substrato indispensável de todo o conhecimento teórico dos deveres seguramente determinado, mas também um desiderato da mais alta importância para a verdadeira prática das suas prescrições.

O que quero dizer é o seguinte: para o indivíduo moral kantiano não interessa se outro acredita ou não em uma entidade suprema. Aliás, para começo de história, o indivíduo sequer tem consciência de que o outro age moralmente ou está levando em consideração suas inclinações porque o que interessa é apenas o fato de este outro estar de acordo com as regras quando as segue. Aquela opinião comumente divulgada de que um sujeito religioso tende a agir moralmente em contraponto a um indivíduo que não acredita em Deus não passa, portanto, de…uma crença.

Na obra sobre A Religião…, Kant faz uma distinção entre essa razão que se guia pela hipótese de um Deus e àquela que postula um Deus para continuar agindo, para encontrar uma finalidade.

Aquela em que eu devo previamente saber que algo é um mandamento divino para o reconhecer como dever meu é a religião revelada (ou necessitada de uma revelação); pelo contrário, aquela em que de antemão devo saber que algo é dever, antes de o poder conhecer como mandamento divino, é a religião natural.

Segundo ele, a primeira está errada, pois projeta algo fora de si para ter uma ação ética. Em Kant, não há espaço para a “venda” de teorias que garantam a felicidade, liberdade, a imortalidade, o paraíso, etc. dentro do campo da moral. Pelo contrário, na sua teoria não há sequer garantia da felicidade, por ex., pois, segundo ele, qualquer tentativa de descrever essas coisas, além de não servir para nada, é falha, devido ao fato de a felicidade, a liberdade, etc., serem maiores que as descrições.

Acabei justamente de mencionar a primeira necessidade; mas vê-se bem que ela é apenas condicional, isto é, devemos admitir a existência de Deus, se quisermos julgar as causas primeiras de tudo o que é contingente, sobretudo na ordem dos fins realmente estabelecidos no mundo. Muito mais importante é a necessidade da razão no seu uso prático, porque é incondicionada e somos forçados então a pressupor a existência de Deus, não apenas se queremos julgar, mas porque devemos julgar.

A razão necessita, pois, de admitir um tal bem supremo dependente e, em vista disso, uma inteligência suprema como sumo Bem independente: não é, claro está, para daí derivar o aspecto obrigatório das leis morais ou os motivos para o seu cumprimento (não teriam então valor moral algum, se o seu móbil dimanasse de algo diferente da própria moral, que por si é apodicticamente certa); mas apenas para dar realidade objectiva ao conceito de bem supremo, isto é, para que este, juntamente com toda a vida ética, se considere apenas um puro ideal, se em nenhum lado existe aquilo cuja ideia acompanha indissoluvelmente a moralidade. [grifos meus]

Esse postulado ou exigência da razão em pensar algo tendo em vista um alicerce, um fundamento último, uma finalidade não é novidade. Já na primeira crítica o autor atentava para isso. Ao meu ver, dois motivos especiais são dignos de nota. O primeiro é que Kant considera tudo do ponto de vista prático, da liberdade. Não é à toa que logo depois dele –  os que foram por ele inspirados –, os idealistas alemães são considerados como aqueles que fundamentaram as filosofias da liberdade. A liberdade de um indivíduo contemplar as idéias de Beleza, Bem Supremo, Bondade, etc. não pode ser negada. E não era sua intenção tirar isso do coração dos homens. A “Crítica do Juízo”, por exemplo, é uma prova disso. Prova de que a contemplação de idéias, a arte não são menos dignas que as questões do conhecimento.

Em contraposição, a fé racional que se baseia na necessidade do seu uso no propósito prático poderia chamar-se um postulado da razão: não como se fosse um discernimento que satisfaria todas as exigências lógicas em relação à certeza, mas porque semelhante assentimento (pois, no homem, tudo se julga bem apenas no aspecto moral) não é inferior em grau a nenhum saber, embora seja totalmente distinto do saber quanto à natureza.

O segundo é que o “formalismo” kantiano apenas corrige o julgar, mas não afirma que o sujeito é pura lógica, pura razão. Na prática, ele abre espaço para esses outros elementos que compõem o ser. A religião é apenas um deles. A idéia de um Deus não amplia o nosso conhecimento, mas quem disse que tudo é conhecer? Se pessoas sentem necessidade de acreditar em Deus, nem por um decreto elas deixariam de ter esse sentimento. E se elas não sentem – são atéias -, o mesmo. Como ele afirma a seguir:

O conceito de Deus e até a convicção da sua existência só podem encontrar-se na razão, só dela promanam e não nos advêm nem por inspiração, nem ainda por uma notícia dada até pela autoridade máxima.

Apreender um pouco desse sentido kantiano é importante, evita nos perdermos ou nos deixarmos levar por argumentos de autoridade ou falsos problemas – falácias.

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  1. Bacanas os seus dois textos sobre Kant e religião. Mas há algo engraçado neles, porque a princípio parece que a filosofia kantiana será útil aos ateus (aliás, muito deles acham que a revolução copernicana mata Deus, e aí se enganam); adiante, em vez de mostrar-se útil a causa atéias ou relativistas, fica claro que Kant tem uma visão de religião natural que defende com todas as forças. É claro que não se trata de nenhuma forma revelada de cristianismo ou que seja (apesar dos inúmeros exemplos tirados da Bíblia para a “Religião nos limites da simples razão”).

    Enfim, gostaria apenas de pedir que você pudesse citar as páginas das citações, pois isso ajudaria bastante. Está claro que você usou o texto das Edições 70 para a “Fundamentação….”, mas faltam as páginas…

    Em sua penúltima citação há uma passagem interessante em que Kant se parece com Aquino, na definição de fé:

    “[…] mas porque semelhante assentimento […] não é inferior em grau a nenhum saber, embora seja totalmente distinto do saber quanto à natureza.”

    Kant entende fé como assentimento (assim como Aquino) e diz que ela não é inferior em grau ao conhecimento, embora difira dele em natureza (assim como Aquino).

    Acho que disso tudo fica claro que não dá para embasar ateísmo algum em Kant. Nem teísmo algum (apesar das constantes citações bíblicas). Kant é obviamente um deísta.

  2. Pingback: Kant Contra o Ateísmo | Diário Filosófico

  3. Adriano, o que eu já tenho tentado falar várias vezes aqui é que não há uma defesa do ateísmo em Kant. Coisa que eu coloquei já no início do texto, quando disse que Kant afirmava não ser uma postura correta. Mas eu disse que há a possibilidade de ateus se aproveitarem dessas considerações para melhor esclarecimento da sua própria postura, de como deveriam agir. Apenas isso.

    Depois procuro colocar as páginas.

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