Assinatura RSS

A dialética do senhor e do servo, o medo e Manderlay

Publicado em

manderlay Três ilustrações: o conflito de consciências n’A dialética do senhor e do servo, que está presente na obra “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel; uma consideração sobre o medo e o tormento de ser mortal, como a de Luis Felipe Pondé;    e Manderlay, o filme de Lars von Trier.

Na dialética do senhor e do servo, há a descrição de um conflito de consciências; conflito que é fruto de uma ausência de reconhecimento mútuo. Uma não vê a outra como legítima, por isso, não a reconhece; tampouco é capaz de ser livre, pois a liberdade exige uma fundamentação social. O escravo é o indivíduo que abdicou da sua autoconsciência para manter-se vivo e ficou preso ao trabalho, enquanto o senhor arriscou a própria vida para conseguir o que desejava: dominar. Porém, o escravo, no momento em que produz para o seu senhor, adquire, de certa forma, sua independência, pois conquista a sua autonomia através da sua relação com o trabalho. Aqui reside a contradição: o senhor, que, aparentemente mostra-se como dominador, na verdade, coloca-se como dependente do escravo, já que precisa deste para atender suas necessidades básicas. Portanto, teme a “morte” do escravo, da mesma forma que o escravo temeu a sua própria morte anteriormente. Em suma, o sujeito não consegue reduzir o outro ao nada, pelo menos não no nível “formal”, sem o auxílio de um combate concreto.

Pausa. Omnis determinatio est negatio, sentença de Spinoza tão usada para afirmar a necessidade de algo “diferente” na explicação do conceito de formação. Se para toda determinação há uma negação, o caráter formalista é insuficiente para apreender as contradições que permeiam a realidade. O epicurismo e o estoicismo, que representam uma forma de vida ausente da esfera pública, dizem respeito a uma liberdade do pensamento e, neste caso, incompleta, falha. A finitude, que é um “mal” marcado pela mortalidade, se contrapõe ao absoluto idêntico a si mesmo.

O indivíduo comum, como afirma Pondé em um café filosófico intitulado “Uma agenda para o medo”, é consciente da morte, mas possui um artifício mental que o impede de lembrar disso o tempo todo, ou seja, há algo na sua consciência que faz com haja um esquecimento. Em alguns momentos, todavia, por maneiras diversas, ele recobra a consciência da sua condição, o que gera uma mudança substancial, e o resultado é: melancolia, angústia, ou mesmo depressão.

Por que o medo? Pondé afirma que é uma ferramenta que faz com que o homem se mantenha vivo, pois, sem esse afeto ou consciência de auto-preservação, facilmente seria dominado. O medo é tomado aqui como medo da negação – vinda de fora – que vai determinar a consciência de uma vez por todas; é a sua formação, que não tem significação apenas positiva, no sentido de entregar algo a uma pessoa, mas também negativa.

Kierkegaard dizia que “a angústia é a possibilidade de liberdade”. Enquanto o desespero é aquilo que “nos coloca acima do animal”. Ambos nos indicam a oportunidade de sermos nós mesmos e ambos nos dizem que a morte é inevitável e que, por isso, devemos apressar o quanto antes esse reconhecimento em nível de consciências. Melhor dizendo, esta é uma das formas de superar o medo e aprender com ele, tornando possível com que assumamos a necessidade dessa determinação de caráter.

Manderlay, do genial Lars von Trier, é a metáfora para esse aprisionamento ainda existente na modernidade, resultado de imposições às quais nós nos submetemos justamente por recusar o novo, a determinação, a formação. Manderlay não é um lugar-comum, é um momento em que há a denúncia do caráter retrógrado de sociedades que são sustentadas por raízes que as assolam. É a pura contradição em evidência: uma substância auto-destrutiva.

Schopenhauer chamava de vontade, Nietzsche de vontade de poder, Foucault simplesmente de poder: esse desvio de caráter que toma proporções muito maiores do que costumamos imaginar. Algo aparentemente isolado, mas que se reflete de maneira inevitável na sociedade.

Anúncios

»

  1. He will be Bach

    Um comentário de um indivíduo comum: é impressão minha ou Manderlay passou completamente batido porque não é com a Nicole Kidman? Eu mesmo só fui saber que tinha continuação quando vi o box na loja.

  2. Eu adoro Manderlay – mais até que Dogville – , mas conheci os filmes do Lars von Trier não faz muito tempo, então não sei responder.

  3. He will be Bach

    Terei de fazer um imenso sacrifício e assistir, então. :)

    Seu post será instrutivo. Por exemplo, eu fui tão lerdo em relação a Dogville que até eu sacar a alusão às hoovervilles e, portanto, que o filme teoricamente se passa na época da Grande Depressão, levou quase 2 anos. Dã.

  4. Relação intrigante, nunca tinha pensado nisso. Você tem intuições muito legais. Gostaria apenas de deixar um comentário sobre os estóicos. Até onde sei o estoicismo não era uma forma de vida ausente do espaço público. Pelo menos não de acordo com Cícero (Sobre a Natureza dos Deuses).

    Ao contrário do epicurismo, o estoicismo acreditava nos sacrifícios e nos vaticínios, aderindo alegremente à estrutura religiosa dos templos e rituais da cidade. Em muitos aspectos há na teologia estóica claro apoio às manifestações “naturais” das religiões condenando veementemente a impiedade, por exemplo. Sua ética postulou algo parecido com um ideal de fraternidade universal, ancorado na razão – daí seu desenvolvimento da silogística como um desdobramento sistêmico da ética – e na idéia do mundo como divindade natural. Se comparados aos deuses epicuristas – reunidos em seu “jardins” – os deuses estóicos são quase uma ONG social.

  5. Então, eu pensei em comentar apenas sobre o epicurismo, mas Hegel, nessa seqüência da Fenomenologia, aponta o “estoicismo” como essa liberdade atingida apenas no pensamento, justamente por essa idéia de que há uma força maior regendo tudo. Mas sua correção é verdadeira, há formas de estoicismo que fazem com que essa regra não seja seguida de maneira tão fiel.

    Parabéns pelo seu blogue! É um prazer e uma honra receber comentários de professores de filosofia.

  6. Este é um dos problemas com o Hegel. Ele meio que usa a história da filosofia como se estivesse num almoxarifado. Quando precisa de apoio para uma tese recorre a uma interpretação “inexata” dos gregos e latinos, como se a apanhasse na estante. Sob muitos aspectos seus textos sobre os pré-socráticos contém equívocos. Não que fosse culpa dele, claro. É que as descobertas arqueológicas – que notamos nas interpretações do Jean Pierre Vernant, por exemplo – ainda não estavam disponíveis.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: