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Arquivo do mês: agosto 2009

Se um dia eu me tornar uma professora…

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Eu vou tirar uma cópia de todos os meus livros raros para que os meus alunos possam ter contato com eles, se necessário. É horrível procurar um livro para comprar e não encontrar, porque ele está “esgotado”.

Filosofia da Arte, Schelling

Se alguém tiver acesso e quiser contrabandear uma cópia, esta pobre estudante, que ainda não domina o alemão e que almeja conhecer as obras básicas dos idealistas, agradece.

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Lucidez

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Uma pergunta necessária:

  • A lucidez é essencialmente cética (isto é, marcada pelo constante exame do pensar e agir e, portanto, que torna possível uma maior assimilação do real)  ou convicta (quer dizer, pautada por um estado um tanto quanto ataráxico, que é indiferente ao real)?

Schopenhauer e a razão sabotada

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schopenhauer

Não consigo entender porque algumas pessoas insistem em dizer que Schopenhauer não formulou uma filosofia coerente e que, por isso mesmo,  foi desprezado pelos historiadores da Filosofia. Bem como não entendo a idéia comumente disseminada de que seus conceitos foram tão mal elaborados que pensadores que beberam da fonte schopenhaueriana conseguiram expressa-los de forma melhor, ganhando assim seu lugar de destaque dentro da história do pensamento humano — como Freud ao criar a idéia de um “Inconsciente”.

Schopenhauer, de fato, não construiu um sistema aparentemente bem sustentado, como o hegeliano. Também nem poderíamos exigir isso do gênio que influenciou o filósofo que demolia as filosofias alheias à marteladas, Nietzsche. Mas alguns bons motivos nos levam a crer que o monumento filosófico chamado Schopenhauer merece ser resgatado e lido, merece sair do porão que os historiados lhe reservaram ao tentar escondê-lo dos espíritos preguiçosos.

Primeiramente, Schopenhauer é o filósofo que localizou a diferença entre as nossas faculdades do conhecimento e os desejos que nos movem. Segundo ele, os desejos que nos movem fundam uma realidade cuja marca maior é responder às nossas formas de agir no mundo, como se estas fossem condicionadas pela atividade que nós mesmos produzimos inicialmente. Até aqui tudo bem, Schopenhauer não pensa muito diferente de outros teóricos. Porém, o diferencial é que ele institui uma Metafísica a partir dessa “imanência”, quando a trabalha negativamente. Schopenhauer exige de si mesmo algo extremamente importante: não postular uma razão ou causa para o mundo. Melhor dizendo, apesar de dar nome a uma razão para a existência do mundo, não confere uma validade incondicional, isto é, não a torna absoluta. É nesse sentido que ele critica os idealistas alemães; principalmente Fichte, aquele que acertou ao colocar um sujeito que age no mundo como pressuposto de sua filosofia, mas errou em dizer que a relação entre sujeito (enquanto vontade) e objeto (enquanto representação) é necessária, absoluta. Para Schopenhauer, a afirmação dessa relação só poderia surgir como resultado de uma  análise da experiência.

Schopenhauer realiza afirmações baseadas nesse pressuposto que consiste em negar um Absoluto. Seja o sujeito, seja objeto, para ele não há muita diferença entre ambos. Por isso mesmo, ele criticou a mínima abertura para esse Absoluto que Kant deu ao instituir uma realidade “prática”, lugar onde o indivíduo pode criar deuses, sonhar que é livre e afins.

Para ele, o mundo não tem a beleza que surge quando o indivíduo  tenta identificar um sentido para ele , isto é, uma finalidade; e nem na razão prática kantiana o indivíduo pode tentar suprir essa falha de um mundo sem causas finais. No mundo schopenhaueriano deuses inexistem e a única vida que pode ser provada é a vida de um indivíduo finito, que deseja infinitamente.  O corpo do indivíduo schopenhaueriano é aquele que deseja, que realiza atividades incessantemente e que acaba por criar um desvio na razão. Isto é, a razão humana, como se não bastasse ser limitada, é ainda sabotada.

O significado, então, reside nessa contraposição entre o sujeito que conhece e o sujeito que deseja. A vida é fundada sobre esses dois pilares que quase em todo momento se chocam. Para solucionar isso, Schopenhauer sugere algumas indicações, algumas leituras de perspectivas diferentes cujas idéias principais são referentes a um mundo (representação) e a um sujeito que é marcado, essencialmente, pela vontade (coisa-em-si). Nesse sentido, ao analisar a atividade de um corpo ou o resultado dessa atividade (a ação dos sujeitos), outros fundamentos para o mundo são postos à tona, e, de certa forma, Schopenhauer tenta concilia-los dentro de um todo coerente. O interessante, nessa leitura, é que o autor é muito mais convincente ao usar exemplos “identificáveis” do que seus colegas –  os idealistas alemães. Principalmente, mais convincente que Hegel, que tenta de todo modo “empurrar” a dialética em seus leitores – dialética essa que passa pela natureza, chega ao mundo enquanto atividade humana e culmina numa razão totalizante.

Com Schopenhauer, nós ressignificamos o conceito da experiência. E é por esse motivo que ele é um filósofo pouco acessível. Imaginemos um pensador que concilia a filosofia e a sabedoria mística – esta, entendida aqui como qualquer coisa além da mera postura intelectual de ocidentais que somos. É, é ele, Schopenhauer. E esse convite que ele nos faz a uma análise de uma série de perspectivas – referentes aos campos: metafísica do belo, metafísica dos costumes, teoria do conhecimento e ontologia – deveria ser aceito. Com a metafísica schopenhaueriana não precisamos comprar a teoria de um ente fora do mundo, tampouco precisamos afirmar categoricamente um ente dentro dele.  Qualquer afirmação mais forte a respeito dessa análise a qual nós submetemos o mundo e nós mesmos é de inteira responsabilidade do indivíduo: o gênio estético, o sujeito ético, o cientista ou o filósofo.

Por que as pessoas costumam parar de blogar?

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Porque elas não são iguais ao Olavo de Carv.., digo, picaretas.

Todo mundo tem comentado a recente “saída” desses caras. Mas eu tenho a noção de que é uma coisa tão plausível dar um tempo na blogosfera, que acabo por não entender essa atitude de quem se diz “comovido”. Não sei se é porque eu tenho como péssimo exemplo de imortal blogueiro o Olavão (e também o Reinaldo), cuja contribuição na blogosfera é marcada por um pagamento, coisa que para mim só denuncia o extremo de quanto as pessoas podem se levar a sério dentro dessa realidade virtual – palavra, inclusive, que muitos consideram obsoleta, mas eu ainda não. Aliás, o valor maior desse espírito blogueiro é justamente esse: o bom-senso. Nos outros fóruns de debate – exceto os de compartilhamento de arquivos e informações relativas à informática – as pessoas costumam acreditar realmente que estão ensinando e corrigindo as outras, isto é, elas alimentam aquele espírito docente com a desculpa de que estão contaminadas pelo altruísmo.

Uma vez, ao participar de um fórum de debates, deparei-me com uma professora  que lecionava nos EUA e tinha como imagem no álbum de fotos a seguinte tira:

tira

Eu até quis crer que era uma brincadeira da professora, mas depois a criatura me fez perceber que ela era mesmo uma criadora de fofocas e intrigas virtuais, ou seja, uma picareta, como o Olavão.

Enfim, tudo isso para dizer que é perfeitamente compreensível encontrar gente comum que decide se desapegar um pouco da internet, bem como de qualquer  “vício”, ou de qualquer idéia…Errados não são eles, mas nós,  ao acreditarmos que as pessoas são sempre as mesmas. Um dos meus antigos blogues preferidos, o blogue da Lys, era um espaço bem legal, mas hibernou um pouco, depois nunca voltou a ser o que era e…acabou. Espero realmente que o blogue do Idelber, que eu tinha acabado de conhecer – a impressão que eu tenho é de que até bem pouco tempo atrás o único blogue que eu conhecia era o do Hermenauta, aliás, meu blogue preferido -, não seja como o da Lys e volte daqui a uns tempos, afinal, o Idelber é um sujeito inteligente, íntegro e tem essa humildade, característica de bons blogueiros, para realmente discutir idéias.

Porque eu admiro a neurociência e a filosofia da mente…

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Imperdível.

Isso precisa ser visto, a prova de que há vida inteligente no país.

As angústias desse meu filosofar

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É incrível perceber que muitas vezes, apesar de nos esforçamos, as coisas simplesmente não acontecem da forma que pensávamos que iriam ocorrer. Quando ingressei no curso de filosofia, a sensação foi maravilhosa. E no decorrer do curso, essa mesma sensação só aumentou, nunca tive aquela não-identificação comum entre os estudantes de Filosofia, que costumam afirmar que o curso não é o que esperavam, que Filosofia existe mesmo fora da academia, onde não há limites a serem respeitados etc.

Entretanto, apesar de ter em mente uma noção razoável da academia e dos vínculos que podem ser estabelecidos nela, eu sempre fui consciente de que tem muita gente ruim lá dentro. E que eu não gostaria de fazer parte dessa classe de “gente ruim”. Só para esclarecer: gente boa, ao contrário do que possam imaginar, não é representada por aquelas pessoas que falam latim, grego, inglês, francês, alemão, tampouco aquelas pessoas que incrivelmente publicam muitos artigos, nem aquelas que participam ativamente de GT’s ou freqüentam muitos eventos, colóquios, encontros. Pessoas que fazem um bom trabalho dentro da Filosofia são aquelas que realmente dialogam com a tradição filosófica e que sabem que ela não é estática, e, por isso mesmo, podem tentar contribuir efetivamente dentro de seu campo específico. Não estou dizendo que as primeiras características, quando pensadas em sua totalidade, entram em contrariedade com a segunda descrição. Pelo contrário. Mas penso simplesmente que não são todos que têm essa capacidade de configurar o seu curriculum desta forma. O supra-sumo da Filosofia no Brasil, na minha humilde opinião, o padre Lima Vaz, é um desses casos raros em que encontramos toda a roupagem que a academia preza associada à ótima qualidade filosófica.

Às vezes passa a seguinte idéia na minha cabeça: que só é possível construir um problema filosófico numa situação de isolamento, leia-se longe da academia e de suas exigências. Não é à toa que esses padres sempre se destacam… Como diz o Daniel Lins:

Em um país como o nosso em que a Filosofia, salvo exceções, é marcadamente teológica, com seu cortejo de ‘‘padres’’, os novos padres ‘‘ateus’’, comentadores atrelados à Filosofia do Estado, a Filosofia que não faz mal a ninguém, os filósofos, supracitados, são arquipélagos da diferença.

Bem, de fato eu estaria sendo reducionista se pensasse que o problema principal é esse. Só deixei o meu lado rebelde falar, agora posso voltar ao outro lado, que possui o mínimo de bom-senso.

O lado ruim de entrar em contato com as mais variadas perspectivas filosófico-acadêmicas é que você acaba por considerar essa posição como cômoda, agradável. Isto significa que você não comunga com os ideais de nenhuma, mas simplesmente não consegue sair do muro. Só quem já teve contato com essa arena filosófica que sabe o quanto é difícil se sentir bem, ao mesmo tempo, em um colóquio sobre Hegel e um colóquio sobre Nietzsche. E eu sou uma dessas pessoas que, incrivelmente, não tem a menor dificuldade em passear por essas arenas – onde o primeiro aproveita o espaço para falar mal do segundo e vice-versa – como se fosse a sua própria casa.

No fundo, sempre fui um pouco diferente das pessoas com quem convivo. Acredito que dá para perceber isto através do blogue, onde está registrada essa admiração por Kant, Hegel, Nietzsche, Debord, Cioran, Filosofia Analítica, Fil. da Mente sem maiores problemas. Eu não cheguei à academia com esse orgulho militante de quem acredita em Marx e vê fetichismo em tudo… Também nunca tive essa loucura – digna de um Capitão Nascimento – dos filósofos analíticos em afirmar: “Você sabe o que é verdade? Não! Então pede para sair.” Lembro que o meu primeiro orientador, um marxista que me dava umas orientações em Hegel, quando me viu com um livro do Debord, falou: “Nossa, pensei que você fosse conservadora.” É, nessa hora, eu percebi o quanto há de ideológico em determinadas escolhas.

O que acontece, no final das contas, é que eu, ao estar num momento em que devo fazer uma decisão, estou pouco segura do que quero. Quer dizer, eu sei o quero, mas estou um pouco receosa a respeito do percurso e também do resultado. Saber a respeito da história da filosofia é relativamente “simples”. Pegar problemas já prontos, ou esquemas já localizados em determinados autores e/ou obras. Mas pegar o autor, localizar um problema um tanto quanto disperso em suas obras e fazê-lo falar é um desafio, na melhor das hipóteses. Porém, é isso justamente o que me atrai. Infelizmente eu não posso simplesmente me apropriar da Filosofia de algum autor e usá-la sem interferir em seus aspectos fundamentais – trabalhos e pesquisas em cima disso já existem. Eu quero, na verdade,  continuar com a minha angústia, mas em um nível maior. Só assim tudo isso vale a pena. Na Filosofia há problemas e eu estaria sendo uma pessoa medíocre e idealizando um trabalho medíocre se pensasse o contrário. Sabe aquela velha noção de que na Filosofia os problemas são mais importantes, até mesmo mais importantes que as respostas? Pois é, essa máxima é verdadeira. E parece que agora faz mais sentido que nunca. Eu quero um problema desafiador, angustiante e prazeroso. Para mim, essa combinação é que faz com que  seja possível um verdadeiro estudo dentro da Filosofia.

É isso, estou tentando fazer uma decisão. Se tudo der certo, daqui a alguns meses volto a escrever sobre ela. Estou escutando umas músicas, tentando relaxar um pouco, além de ler, como sempre fiz. Esses exercícios sempre me ajudam. Espero conseguir fazer valer essa vontade nas próximas semanas. De todo modo, como Cioran, vou sempre continuar a caluniar o Universo, e faço isso porque as angústias do meu filosofar às vezes falam por mim.

Kseniya Simonova – Sand Animation

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