Assinatura RSS

As angústias desse meu filosofar

Publicado em

É incrível perceber que muitas vezes, apesar de nos esforçamos, as coisas simplesmente não acontecem da forma que pensávamos que iriam ocorrer. Quando ingressei no curso de filosofia, a sensação foi maravilhosa. E no decorrer do curso, essa mesma sensação só aumentou, nunca tive aquela não-identificação comum entre os estudantes de Filosofia, que costumam afirmar que o curso não é o que esperavam, que Filosofia existe mesmo fora da academia, onde não há limites a serem respeitados etc.

Entretanto, apesar de ter em mente uma noção razoável da academia e dos vínculos que podem ser estabelecidos nela, eu sempre fui consciente de que tem muita gente ruim lá dentro. E que eu não gostaria de fazer parte dessa classe de “gente ruim”. Só para esclarecer: gente boa, ao contrário do que possam imaginar, não é representada por aquelas pessoas que falam latim, grego, inglês, francês, alemão, tampouco aquelas pessoas que incrivelmente publicam muitos artigos, nem aquelas que participam ativamente de GT’s ou freqüentam muitos eventos, colóquios, encontros. Pessoas que fazem um bom trabalho dentro da Filosofia são aquelas que realmente dialogam com a tradição filosófica e que sabem que ela não é estática, e, por isso mesmo, podem tentar contribuir efetivamente dentro de seu campo específico. Não estou dizendo que as primeiras características, quando pensadas em sua totalidade, entram em contrariedade com a segunda descrição. Pelo contrário. Mas penso simplesmente que não são todos que têm essa capacidade de configurar o seu curriculum desta forma. O supra-sumo da Filosofia no Brasil, na minha humilde opinião, o padre Lima Vaz, é um desses casos raros em que encontramos toda a roupagem que a academia preza associada à ótima qualidade filosófica.

Às vezes passa a seguinte idéia na minha cabeça: que só é possível construir um problema filosófico numa situação de isolamento, leia-se longe da academia e de suas exigências. Não é à toa que esses padres sempre se destacam… Como diz o Daniel Lins:

Em um país como o nosso em que a Filosofia, salvo exceções, é marcadamente teológica, com seu cortejo de ‘‘padres’’, os novos padres ‘‘ateus’’, comentadores atrelados à Filosofia do Estado, a Filosofia que não faz mal a ninguém, os filósofos, supracitados, são arquipélagos da diferença.

Bem, de fato eu estaria sendo reducionista se pensasse que o problema principal é esse. Só deixei o meu lado rebelde falar, agora posso voltar ao outro lado, que possui o mínimo de bom-senso.

O lado ruim de entrar em contato com as mais variadas perspectivas filosófico-acadêmicas é que você acaba por considerar essa posição como cômoda, agradável. Isto significa que você não comunga com os ideais de nenhuma, mas simplesmente não consegue sair do muro. Só quem já teve contato com essa arena filosófica que sabe o quanto é difícil se sentir bem, ao mesmo tempo, em um colóquio sobre Hegel e um colóquio sobre Nietzsche. E eu sou uma dessas pessoas que, incrivelmente, não tem a menor dificuldade em passear por essas arenas – onde o primeiro aproveita o espaço para falar mal do segundo e vice-versa – como se fosse a sua própria casa.

No fundo, sempre fui um pouco diferente das pessoas com quem convivo. Acredito que dá para perceber isto através do blogue, onde está registrada essa admiração por Kant, Hegel, Nietzsche, Debord, Cioran, Filosofia Analítica, Fil. da Mente sem maiores problemas. Eu não cheguei à academia com esse orgulho militante de quem acredita em Marx e vê fetichismo em tudo… Também nunca tive essa loucura – digna de um Capitão Nascimento – dos filósofos analíticos em afirmar: “Você sabe o que é verdade? Não! Então pede para sair.” Lembro que o meu primeiro orientador, um marxista que me dava umas orientações em Hegel, quando me viu com um livro do Debord, falou: “Nossa, pensei que você fosse conservadora.” É, nessa hora, eu percebi o quanto há de ideológico em determinadas escolhas.

O que acontece, no final das contas, é que eu, ao estar num momento em que devo fazer uma decisão, estou pouco segura do que quero. Quer dizer, eu sei o quero, mas estou um pouco receosa a respeito do percurso e também do resultado. Saber a respeito da história da filosofia é relativamente “simples”. Pegar problemas já prontos, ou esquemas já localizados em determinados autores e/ou obras. Mas pegar o autor, localizar um problema um tanto quanto disperso em suas obras e fazê-lo falar é um desafio, na melhor das hipóteses. Porém, é isso justamente o que me atrai. Infelizmente eu não posso simplesmente me apropriar da Filosofia de algum autor e usá-la sem interferir em seus aspectos fundamentais – trabalhos e pesquisas em cima disso já existem. Eu quero, na verdade,  continuar com a minha angústia, mas em um nível maior. Só assim tudo isso vale a pena. Na Filosofia há problemas e eu estaria sendo uma pessoa medíocre e idealizando um trabalho medíocre se pensasse o contrário. Sabe aquela velha noção de que na Filosofia os problemas são mais importantes, até mesmo mais importantes que as respostas? Pois é, essa máxima é verdadeira. E parece que agora faz mais sentido que nunca. Eu quero um problema desafiador, angustiante e prazeroso. Para mim, essa combinação é que faz com que  seja possível um verdadeiro estudo dentro da Filosofia.

É isso, estou tentando fazer uma decisão. Se tudo der certo, daqui a alguns meses volto a escrever sobre ela. Estou escutando umas músicas, tentando relaxar um pouco, além de ler, como sempre fiz. Esses exercícios sempre me ajudam. Espero conseguir fazer valer essa vontade nas próximas semanas. De todo modo, como Cioran, vou sempre continuar a caluniar o Universo, e faço isso porque as angústias do meu filosofar às vezes falam por mim.

Anúncios

»

  1. Daniel Christino

    Então, moça, é difícil. Mas lembre-se que trabalhos acadêmicos são etapas e nunca o objetivo final. Seja diligente mas não pense que seu futuro será decidido agora. Nós quase nunca temos consciência dos verdadeiros turnning points da vida, exceto quando já aconteceram. O essencial é não falsear a si mesmo, nem quando outros o fazem em nome do que eles veem em nós. A filosofia é uma atenção intelectual, uma resposta ao pasmo essencial. Ela não precisa ser original – já é na medida em que é sempre minha resposta -, só precisa ser autêntica.

    E não se preocupe com seu trânsito fácil entre as “igrejas” como diz o Daniel Lins, isso é bom. Significa que você é uma ótima hermenêuta e possui amplos horizontes. Não existe conforto existencial nas adesões. Boa sorte.

  2. opatriarcacontemporaneo

    Não seguir “Igrejas” é, para mim, sinal de inteligência e bom-senso. Deve-se ouvir o que os tais mestres tem a dizer e separar o que é asneira do que é relevante… e vc parce ter dicernimento de sobra pra fazer isto.

  3. Diego Fernandes

    Eu também pude sentir essa crescente sensação agradável desde que entrei no curso de filosofia. Atualmente estou no 8º Período (o último), e o entusiasmo ao me aprofundar nas problemáticas que surgem a cada aula só me fazem desejar a filosofia cada vez mais.

    Excelente blog, parabéns.

  4. Supondo que você esteja em dúvida sobre escolha de tema de pesquisa, aqui vai um conselho: ao menos na minha experiência, quase todos os problemas reemergem não interessa que tema você escolha. Go with your gut.

  5. Obrigada pelos comentários, rapazes. :)

    Daniel Christino: Estou pensando muito nisso recentemente. Não preciso me angustiar se não vou dar a resposta final… mesmo porque na Filosofia isso é impossível de acontecer.

    NPTO: Ó, levarei isso em consideração. Se bem que, inconscientemente, já devo pensar nisso… freqüentemente sonho acordada pensando que de qualquer forma eu iria colocar as temáticas preferidas dentro de outro tema principal, se fosse escolher outro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: