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Schopenhauer e a razão sabotada

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Não consigo entender porque algumas pessoas insistem em dizer que Schopenhauer não formulou uma filosofia coerente e que, por isso mesmo,  foi desprezado pelos historiadores da Filosofia. Bem como não entendo a idéia comumente disseminada de que seus conceitos foram tão mal elaborados que pensadores que beberam da fonte schopenhaueriana conseguiram expressa-los de forma melhor, ganhando assim seu lugar de destaque dentro da história do pensamento humano — como Freud ao criar a idéia de um “Inconsciente”.

Schopenhauer, de fato, não construiu um sistema aparentemente bem sustentado, como o hegeliano. Também nem poderíamos exigir isso do gênio que influenciou o filósofo que demolia as filosofias alheias à marteladas, Nietzsche. Mas alguns bons motivos nos levam a crer que o monumento filosófico chamado Schopenhauer merece ser resgatado e lido, merece sair do porão que os historiados lhe reservaram ao tentar escondê-lo dos espíritos preguiçosos.

Primeiramente, Schopenhauer é o filósofo que localizou a diferença entre as nossas faculdades do conhecimento e os desejos que nos movem. Segundo ele, os desejos que nos movem fundam uma realidade cuja marca maior é responder às nossas formas de agir no mundo, como se estas fossem condicionadas pela atividade que nós mesmos produzimos inicialmente. Até aqui tudo bem, Schopenhauer não pensa muito diferente de outros teóricos. Porém, o diferencial é que ele institui uma Metafísica a partir dessa “imanência”, quando a trabalha negativamente. Schopenhauer exige de si mesmo algo extremamente importante: não postular uma razão ou causa para o mundo. Melhor dizendo, apesar de dar nome a uma razão para a existência do mundo, não confere uma validade incondicional, isto é, não a torna absoluta. É nesse sentido que ele critica os idealistas alemães; principalmente Fichte, aquele que acertou ao colocar um sujeito que age no mundo como pressuposto de sua filosofia, mas errou em dizer que a relação entre sujeito (enquanto vontade) e objeto (enquanto representação) é necessária, absoluta. Para Schopenhauer, a afirmação dessa relação só poderia surgir como resultado de uma  análise da experiência.

Schopenhauer realiza afirmações baseadas nesse pressuposto que consiste em negar um Absoluto. Seja o sujeito, seja objeto, para ele não há muita diferença entre ambos. Por isso mesmo, ele criticou a mínima abertura para esse Absoluto que Kant deu ao instituir uma realidade “prática”, lugar onde o indivíduo pode criar deuses, sonhar que é livre e afins.

Para ele, o mundo não tem a beleza que surge quando o indivíduo  tenta identificar um sentido para ele , isto é, uma finalidade; e nem na razão prática kantiana o indivíduo pode tentar suprir essa falha de um mundo sem causas finais. No mundo schopenhaueriano deuses inexistem e a única vida que pode ser provada é a vida de um indivíduo finito, que deseja infinitamente.  O corpo do indivíduo schopenhaueriano é aquele que deseja, que realiza atividades incessantemente e que acaba por criar um desvio na razão. Isto é, a razão humana, como se não bastasse ser limitada, é ainda sabotada.

O significado, então, reside nessa contraposição entre o sujeito que conhece e o sujeito que deseja. A vida é fundada sobre esses dois pilares que quase em todo momento se chocam. Para solucionar isso, Schopenhauer sugere algumas indicações, algumas leituras de perspectivas diferentes cujas idéias principais são referentes a um mundo (representação) e a um sujeito que é marcado, essencialmente, pela vontade (coisa-em-si). Nesse sentido, ao analisar a atividade de um corpo ou o resultado dessa atividade (a ação dos sujeitos), outros fundamentos para o mundo são postos à tona, e, de certa forma, Schopenhauer tenta concilia-los dentro de um todo coerente. O interessante, nessa leitura, é que o autor é muito mais convincente ao usar exemplos “identificáveis” do que seus colegas –  os idealistas alemães. Principalmente, mais convincente que Hegel, que tenta de todo modo “empurrar” a dialética em seus leitores – dialética essa que passa pela natureza, chega ao mundo enquanto atividade humana e culmina numa razão totalizante.

Com Schopenhauer, nós ressignificamos o conceito da experiência. E é por esse motivo que ele é um filósofo pouco acessível. Imaginemos um pensador que concilia a filosofia e a sabedoria mística – esta, entendida aqui como qualquer coisa além da mera postura intelectual de ocidentais que somos. É, é ele, Schopenhauer. E esse convite que ele nos faz a uma análise de uma série de perspectivas – referentes aos campos: metafísica do belo, metafísica dos costumes, teoria do conhecimento e ontologia – deveria ser aceito. Com a metafísica schopenhaueriana não precisamos comprar a teoria de um ente fora do mundo, tampouco precisamos afirmar categoricamente um ente dentro dele.  Qualquer afirmação mais forte a respeito dessa análise a qual nós submetemos o mundo e nós mesmos é de inteira responsabilidade do indivíduo: o gênio estético, o sujeito ético, o cientista ou o filósofo.

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