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Arquivo do mês: setembro 2010

Sobre as eleições: um pouco de Aristóteles e as três perguntas kantianas

Ultimamente eu tenho agido de forma bem kantiana em relação às minhas crenças, ao que eu penso, ao que eu vivo. Kant afirmou que três questões exercem importância fundamental na filosofia, são elas: “O que eu posso saber?”, “O que eu devo fazer?”, e “O que eu devo esperar?”. Ora, elas parecem mesmo importantes não apenas por serem capazes de sistematizar aquilo que é objeto de interesse humano no sentido formal, público – o que me parece distinguir a esfera pública da privada, evitando uma confusão entre elas – mas também por preparar o homem para julgar de forma moderada. Não sei se é porque estou lendo a “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, de modo que estou sendo influenciada por ela, mas me parece muito mais intuitivo tratar de forma sistemática um assunto acompanhado de conceitos que podem ser aludidos de forma empírica, isto é, conceitos “verificáveis” que propriamente acompanhado apenas de conceitos que funcionam como regras, normas ou leis.

Agir com esses “meios” obviamente traz uma série de problemas, por exemplo, traz perguntas que aparentemente não têm resposta, simplesmente pelo fato de esse sistema não ser de “longo alcance”, mas ao mesmo tempo em que não se faz uma leitura fiel a “sistemas” (vale dizer que muitos não se consideram sistemas, por questão de método, mas o que não quer dizer que eles não se comportem como tal) que almejam lançar respostas que sirvam de raiz a todos esses problemas – não deixo de pensar aqui em Foucault e sua tese sobre o poder -, parece que as teorias chegam mais perto de serem colocadas em prática, se é que podemos falar assim, se é que esses conceitos ainda funcionam depois das teses formuladas pelos teóricos da linguagem e da ação.

Divago. Divago porque nunca penso que os problemas públicos podem ser respondidos de formas simples, ainda que essas respostas tenham sido resultado de pesquisas sérias, mas sabe como é, a filosofia não se conforma com respostas, vindo elas de onde vierem. A idéia é dissecar o plano do pensamento humano. Aliás, nem sei se os objetos de interesse da prática privada podem ser vistos como algo que se esgota em conversas ou mesmo série de conversas. Sabe essa gente que vai a programas de televisão e fala de “sexualidade” como se ela pudesse se restringir a determinadas práticas sexuais, pois é, aquilo não vale para ninguém, não sei como ainda tem gente que pode acreditar naquilo.

Pois bem. O que quero dizer é que erramos, erramos e erramos feio quando não sabemos tratar de forma adequada conceitos que deveriam servir para esclarecer questões e não obscurecer.  Na época de eleições, somos arremessados para esse campo da política, da ação humana. É interessante observar que, pelo menos isso é fato no nosso país, como cada um tem a sua “verdade” sobre o que seja bom para todos, segundo critérios que nem sempre são claros, mas que, ainda segundo esse cada um, são suficientes. Idéias sobre liberdade, democracia, pleno exercício dos direitos são exemplos do que se divulga, são exemplos de nomes em virtude dos quais se compra teorias de – novamente falo sob a perspectiva da realidade brasileira – partidos. O contrário também é verdadeiro, isto é, situações nas quais são apontados exemplos de modelos que não devem ser seguidos (por exemplo, a idéia de que “Você pensa que Cuba é livre? Então mude-se para lá!)  também são comuns, como se fossem a idéia-chave que encerra o problema.

Incorporando essas três questões kantianas ao exercício da prática política, nos deparamos com a necessidade de se enxergar limites para a aplicação desses conceitos. Melhor dizendo, percebemos que as categorias, os conceitos, os rótulos, os chavões, etc. não são suficientes para dar conta da realidade brasileira, nem analogicamente falando – isto é, lançando mão de comparação – e muito menos de forma “pura”, ou seja, democracia por democracia, liberdade por liberdade, etc.

O que não quer dizer que não podemos sonhar ou, falando de uma forma menos romântica, imaginar condições de vida melhores. Eu, por exemplo, gostaria de ter uma presidente que fosse capaz não só de executar os planos que reduzem vários problemas dos quais o Brasil inteiro já está consciente, como também de cuidar de questões igualmente sérias, mas que ainda não foram incorporadas à lista dos desejos dos brasileiros (como a questão ambiental). Seria muito mais “palpável”, digamos assim, para as mentes de muitas pessoas elegerem alguém com essas características do que eleger alguém com o passado de lutas, confrontos com eventos como a ditadura. Isto porque essas mentes – que não são poucas – do ponto de vista político, têm visão e memória limitadas. E isso ocorre, vale frisar, não por falta de inteligência prática – o que talvez falte muito mais nas assim chamadas elites, seja lá o que isso quer dizer -, mas é um problema muito mais de cunho educacional e, portanto, é um problema concreto, que deve ser sanado. Porém, como não temos esse modelo de presidente como possível, nem por não devemos nos desligar da idéia de os problemas – todos eles – possam ser resolvidos de forma mais lenta. Mas, mesmo para isso acontecer – a redução de alguns desses problemas, sejam econômicos, sociais, éticos, ambiental ou quaisquer outros -, temos que ter em mente critérios objetivos fundamentais, para isso, precisamos nortear os mesmos critérios, pois, reitero, é uma questão política, e não pertence apenas ao âmbito individual. De modo de questões como as kantianas: “O que eu posso saber?”, “O que eu devo fazer?”, e “O que eu devo esperar?” podem ser instrumentalmente aplicadas para o próprio esclarecimento da realidade. Sei que isso pode soar bastante iluminista, mas juro que essa não é a intenção.  Faço alusão ao reconhecimento de limites, ao que eu posso saber, ao que eu devo fazer e ao que eu devo esperar em relação aquilo que de fato interessa: nesse caso, a realidade brasileira no período de quatro anos. Eu posso saber tudo? Provavelmente não, mas posso saber do que já foi feito anteriormente, os planos que foram executados, os que não foram, o que foram aplicados de forma a favorecer à população, o que não, posso também saber quais os planos e propostas, etc. O que eu devo fazer? Como eu, enquanto sujeito, posso contribuir para que o que está sendo feito de correto continue sendo feito, como eu posso denunciar o que está sendo feito de errado, como eu posso me manifestar, quando e em que circunstâncias, etc. E o que eu devo esperar? Poderia falar muito sobre o que se deve esperar, mas em síntese, posso esperar pela repetição de erros ou pela mudança em benefício próprio como em benefício dos meus próximos, inclusive, dos que ainda estão por vir.

Talvez assim se possa construir o espaço no qual esses conceitos sejam aplicados, talvez assim cheguemos mais próximos ao campo da democracia, da liberdade, do pleno exercício dos direitos e tantas outras coisas tão caras aos indivíduos. Talvez seja o caso que, conseqüentemente, as pessoas passem a discernir de forma coerente o que é necessário daquilo que é apenas possível, o que já existe do que ainda pode existir, em suma, o que foi feito, o que está sendo feito e o que ainda pode ser feito. E que não venham falsos portadores da verdade apontar aquilo que supostamente é interesse comum, mas que nem me reconheço nele. Que não tentem vender, Folha, Veja e tantas outras, aquilo que ninguém está interessado em comprar: mentiras velhas que são fruto do pacto feito com as instituições que imortalizam o atraso com vistas apenas ao seu benefício próprio, pois essas mesmas instituições esqueceram-se de que quando Aristóteles falou que o homem é um animal essencialmente político, essa fala vem acompanhada de diversas implicações, implicações essas de toda sorte: sociais, morais, éticas.

Deixemos de lado, como afirmou Guy Debord, essa linguagem que reúne e mantém o separado, mas como separado. É que Debord, como bom hegeliano que era, entendia que só a partir do momento em que se admite que há separações, é que elas podem ser superadas. Ou seja, para quem a Folha, a Veja e tantas outras querem vender? Quais seus reais interesses e a quem elas servem? Em nome de quem se levanta as bandeiras que são levantadas por elas?

Talvez não tenhamos mais como realizar a ética das virtudes de Aristóteles, ninguém mais acredita em ideais, ainda mais iluministas, tampouco, acredito eu, temos a disposição que tiveram aqueles panfletários e dissidentes de 68, mas temos outros meios para construir esse espaço, só resta saber de que forma usá-los. De qualquer forma, que aprendamos a usá-los sozinhos, de forma autônoma – não “sozinhos” como pensou Kant, que não tematizou a intersubjetividade, não falo nos termos de uma subjetividade excluída de todo o resto, mas sozinhos no sentido de que não venha algo externo às vontades que estão em jogo impor práticas sociais com o único intuito de alimentar os seus próprios interesses.

Sobre certas leituras (e literaturas) filosóficas

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Ultimamente tenho tido dificuldade com leituras demoradas; aliás, com todo tipo de leitura. Há momentos em nossas vidas que a paciência esgota e, bem, minha paciência já é limitadíssima em relação a muitas esferas, uma hora isso iria acontecer também em relação àquilo que considero fundamental: a leitura de textos filosóficos.

Porém, momentos assim são válidos para aprendermos a selecionar um pouco melhor aquilo que ocupa a maior parte do nosso tempo e, em alguns casos, ajuda a ativar a nossa atenção. Desde que entrei no curso de filosofia (há uns quatro anos), eu li muitos textos – alguns bastante densos -, mas poucos foram capazes de despertar de fato o meu interesse no âmbito da pesquisa. Mas nem todos os textos devem ser lidos como monumentos da história da filosofia, e eu sempre tive isso em mente, o que me permitiu transitar (não passear, que remete a uma atividade de lazer, o que não é o caso) através de diversos caminhos.O que eu quero dizer é que nem tudo na filosofia é tese, e nem tudo pretende sê-lo. Comungo da idéia de que filosofia é também história da filosofia -não sei quem inventou essa idéia de que história da filosofia é algo ruim e que filosofia é só criação de teses filosóficas (talvez quem inventou essa idéia  fosse imaturo um imaturo intelectual e pensasse também que se deve falar de algo antes de conhecer, enfim, aquelas pessoas que pensam que só porque descobriram a filosofia, a mesma “começou” ou “acabou” com isso).

Aqui chego ao ponto que eu queria. Há literatura que nos desperta o interesse e consegue dizer a que veio. E isso, reitero, não necessariamente está ligado a uma tese. Pode ser um ensaio, um artigo de jornal ou revista, um panfleto, um post em um blog (por quê não?). Pode estar relacionado à especificação de um problema e uma possível resposta a ele.

Pois bem, estive lendo um exemplo dessa literatura, que é o livro de um autor chamado Gérard Lebrun. Do Lebrun, eu havia lido o monumental “A paciência do conceito”, uma tese riquíssima e que merece ser explorada, que trata do pensamento de Hegel. Um dos poucos livros que eu li sobre Hegel que demonstra profundidade e rigor invejáveis, mas ao mesmo tempo em que não abre mão de uma identidade com a obra, isto é, é aquele tipo de texto que parece vivo; em suma, inspirador. Também havia lido outros textos do autor sobre Kant, que conseguiram despertar igual interesse. Mas o livro em questão é “A filosofia e sua história”.

A filosofia e sua história

A filosofia e sua história

“A filosofia e sua história” é um livro que eu encontrei por acaso na última bienal do livro realizada aqui, em Fortaleza. É uma coletânea de ensaios que foi editada com o intuito de homenagear o brilhante autor francês que realizou, por quase quarenta anos, atividades no nosso país. Quando alguém me pede para recomendar algum livro de filosofia, eu fico na dúvida entre indicar uma literatura mais densa ou mais poética, entre indicar uma introdução à história da filosofia ou uma obra marcante da história da filosofia, mas certamente “A filosofia e sua história” é um livro que eu indicaria, pois ele dá aquela sensação de que não falta nem sobra nada nele, ao mesmo tempo em que a pessoa pode escolher quais ensaios deve ler, uma vez que o conteúdo é vasto, mas tudo é escrito de forma especial. Os leitores percebem o cuidado do autor com aquilo que ele escreve, e, vejam só, alguns desses ensaios foram conferências realizadas no decorrer de sua carreira acadêmica (imagino a riqueza delas, inclusive, até na apresentação do livro, é afirmado que ele era aplaudido no final de suas conferências, o que o deixava um pouco constrangido). É ótima a sensação de não ser enganado. Mas melhor ainda é a idéia de que alguém escreve aquilo que pensa que deve escrever. Eu fico muito irritada com essa “mercantilização” de idéias que ocorre de vez em quando na academia. Uma pessoa que não escreve tudo o que tem a oferecer num livro, uma pessoa que decompõe aquilo que deveria ser seu em vários pedaços (artigos) para publicar em diversos espaços que a opinião pública considera “especializados” não deveria ser digna de ter leitores. Parece ser característica do Lebrun essa força inesgotável direcionada à investigação filosófica, e isso me inspira, e isso é que eu recomendo. A especificidade de certas literaturas filosóficas fazem com que elas ganhem ou não espaço no seu campo de atuação. Essa mesma especificidade não garante que essas mesmas obras sejam lidas – tendo elas espaço ou não. Mas certamente a especificidade de uma obra a distingue de tantas outras em momentos em que a produção é grande – sendo esta mesma produção de qualidade ou não. E as especificidades da obra do Lebrun que eu quero destacar aqui é a capacidade de se fazer compreendido, porque o autor conhece a respeito do que fala, ou seja tem cultura, mas também a capacidade ser crítico sem deixar de ser cuidadoso. E isso me faz lembrar aquelas perguntas clássicas sobre o que leva o homem a filosofar, alguns dizem que é a curiosidade, outros dizem que a é a dúvida – as respostas são muitas. E tem autores que parecem despertar em nós tudo isso, isto é, parecem despertar em nós a filosofia. Depois não digam que fazer história da filosofia é ruim. Se a história da filosofia consegue despertar nos homens o interesse pelo bom pensamento filosófico, então ela não pode ser ruim.

E, só para deixar claro que talvez o próprio autor concordasse com o que estou falando, vou usar a conclusão do seu primeiro artigo da coletânea, intuitulado “Por que filósofo?”, diz ele sobre o historiador da filosofia, que não está a serviço de ideologias:

Esta é a questão que ele põe de agora em diante àqueles que pretendem residir em alguma “Verdade” ou em alguma “Justiça”. Então, que se meça quanto, uma vez mais, deve ser completa a vitória da antifilosofia deste que “sempre permanece, junto de toda a humanidade, na ofensiva, e não possui qualquer estação fixa, nenhuma residência, que estivesse em todas as ocasiões obrigado a defender!”. (Gérard Lebrun. A filosofia e sua história. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 26)


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