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Sobre certas leituras (e literaturas) filosóficas

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Ultimamente tenho tido dificuldade com leituras demoradas; aliás, com todo tipo de leitura. Há momentos em nossas vidas que a paciência esgota e, bem, minha paciência já é limitadíssima em relação a muitas esferas, uma hora isso iria acontecer também em relação àquilo que considero fundamental: a leitura de textos filosóficos.

Porém, momentos assim são válidos para aprendermos a selecionar um pouco melhor aquilo que ocupa a maior parte do nosso tempo e, em alguns casos, ajuda a ativar a nossa atenção. Desde que entrei no curso de filosofia (há uns quatro anos), eu li muitos textos – alguns bastante densos -, mas poucos foram capazes de despertar de fato o meu interesse no âmbito da pesquisa. Mas nem todos os textos devem ser lidos como monumentos da história da filosofia, e eu sempre tive isso em mente, o que me permitiu transitar (não passear, que remete a uma atividade de lazer, o que não é o caso) através de diversos caminhos.O que eu quero dizer é que nem tudo na filosofia é tese, e nem tudo pretende sê-lo. Comungo da idéia de que filosofia é também história da filosofia -não sei quem inventou essa idéia de que história da filosofia é algo ruim e que filosofia é só criação de teses filosóficas (talvez quem inventou essa idéia  fosse imaturo um imaturo intelectual e pensasse também que se deve falar de algo antes de conhecer, enfim, aquelas pessoas que pensam que só porque descobriram a filosofia, a mesma “começou” ou “acabou” com isso).

Aqui chego ao ponto que eu queria. Há literatura que nos desperta o interesse e consegue dizer a que veio. E isso, reitero, não necessariamente está ligado a uma tese. Pode ser um ensaio, um artigo de jornal ou revista, um panfleto, um post em um blog (por quê não?). Pode estar relacionado à especificação de um problema e uma possível resposta a ele.

Pois bem, estive lendo um exemplo dessa literatura, que é o livro de um autor chamado Gérard Lebrun. Do Lebrun, eu havia lido o monumental “A paciência do conceito”, uma tese riquíssima e que merece ser explorada, que trata do pensamento de Hegel. Um dos poucos livros que eu li sobre Hegel que demonstra profundidade e rigor invejáveis, mas ao mesmo tempo em que não abre mão de uma identidade com a obra, isto é, é aquele tipo de texto que parece vivo; em suma, inspirador. Também havia lido outros textos do autor sobre Kant, que conseguiram despertar igual interesse. Mas o livro em questão é “A filosofia e sua história”.

A filosofia e sua história

A filosofia e sua história

“A filosofia e sua história” é um livro que eu encontrei por acaso na última bienal do livro realizada aqui, em Fortaleza. É uma coletânea de ensaios que foi editada com o intuito de homenagear o brilhante autor francês que realizou, por quase quarenta anos, atividades no nosso país. Quando alguém me pede para recomendar algum livro de filosofia, eu fico na dúvida entre indicar uma literatura mais densa ou mais poética, entre indicar uma introdução à história da filosofia ou uma obra marcante da história da filosofia, mas certamente “A filosofia e sua história” é um livro que eu indicaria, pois ele dá aquela sensação de que não falta nem sobra nada nele, ao mesmo tempo em que a pessoa pode escolher quais ensaios deve ler, uma vez que o conteúdo é vasto, mas tudo é escrito de forma especial. Os leitores percebem o cuidado do autor com aquilo que ele escreve, e, vejam só, alguns desses ensaios foram conferências realizadas no decorrer de sua carreira acadêmica (imagino a riqueza delas, inclusive, até na apresentação do livro, é afirmado que ele era aplaudido no final de suas conferências, o que o deixava um pouco constrangido). É ótima a sensação de não ser enganado. Mas melhor ainda é a idéia de que alguém escreve aquilo que pensa que deve escrever. Eu fico muito irritada com essa “mercantilização” de idéias que ocorre de vez em quando na academia. Uma pessoa que não escreve tudo o que tem a oferecer num livro, uma pessoa que decompõe aquilo que deveria ser seu em vários pedaços (artigos) para publicar em diversos espaços que a opinião pública considera “especializados” não deveria ser digna de ter leitores. Parece ser característica do Lebrun essa força inesgotável direcionada à investigação filosófica, e isso me inspira, e isso é que eu recomendo. A especificidade de certas literaturas filosóficas fazem com que elas ganhem ou não espaço no seu campo de atuação. Essa mesma especificidade não garante que essas mesmas obras sejam lidas – tendo elas espaço ou não. Mas certamente a especificidade de uma obra a distingue de tantas outras em momentos em que a produção é grande – sendo esta mesma produção de qualidade ou não. E as especificidades da obra do Lebrun que eu quero destacar aqui é a capacidade de se fazer compreendido, porque o autor conhece a respeito do que fala, ou seja tem cultura, mas também a capacidade ser crítico sem deixar de ser cuidadoso. E isso me faz lembrar aquelas perguntas clássicas sobre o que leva o homem a filosofar, alguns dizem que é a curiosidade, outros dizem que a é a dúvida – as respostas são muitas. E tem autores que parecem despertar em nós tudo isso, isto é, parecem despertar em nós a filosofia. Depois não digam que fazer história da filosofia é ruim. Se a história da filosofia consegue despertar nos homens o interesse pelo bom pensamento filosófico, então ela não pode ser ruim.

E, só para deixar claro que talvez o próprio autor concordasse com o que estou falando, vou usar a conclusão do seu primeiro artigo da coletânea, intuitulado “Por que filósofo?”, diz ele sobre o historiador da filosofia, que não está a serviço de ideologias:

Esta é a questão que ele põe de agora em diante àqueles que pretendem residir em alguma “Verdade” ou em alguma “Justiça”. Então, que se meça quanto, uma vez mais, deve ser completa a vitória da antifilosofia deste que “sempre permanece, junto de toda a humanidade, na ofensiva, e não possui qualquer estação fixa, nenhuma residência, que estivesse em todas as ocasiões obrigado a defender!”. (Gérard Lebrun. A filosofia e sua história. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 26)


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Uma resposta »

  1. Gostei da sua recomendação. Vou correndo comprá-lo em breve.

    Talvez eu faça graduação em Filosofia na UFRJ, antes do Mestrado.

    lindinha, eu também endosso (sei que não sou ninguém para isso) a ideia de que filosofia é história da filosofia. Não adianta virem os embusteiros dizendo que filosofia é a arte e criar conceitos. Deleuze pode não ser tudo o que dizem em filosofia (devem dar essa moral toda para ele por ele ter sido um revolucionário), mas ele foi grande em história da filosofia. O que chega a ser irônico.

    Beijão!!

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