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Sobre as eleições: um pouco de Aristóteles e as três perguntas kantianas

Ultimamente eu tenho agido de forma bem kantiana em relação às minhas crenças, ao que eu penso, ao que eu vivo. Kant afirmou que três questões exercem importância fundamental na filosofia, são elas: “O que eu posso saber?”, “O que eu devo fazer?”, e “O que eu devo esperar?”. Ora, elas parecem mesmo importantes não apenas por serem capazes de sistematizar aquilo que é objeto de interesse humano no sentido formal, público – o que me parece distinguir a esfera pública da privada, evitando uma confusão entre elas – mas também por preparar o homem para julgar de forma moderada. Não sei se é porque estou lendo a “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, de modo que estou sendo influenciada por ela, mas me parece muito mais intuitivo tratar de forma sistemática um assunto acompanhado de conceitos que podem ser aludidos de forma empírica, isto é, conceitos “verificáveis” que propriamente acompanhado apenas de conceitos que funcionam como regras, normas ou leis.

Agir com esses “meios” obviamente traz uma série de problemas, por exemplo, traz perguntas que aparentemente não têm resposta, simplesmente pelo fato de esse sistema não ser de “longo alcance”, mas ao mesmo tempo em que não se faz uma leitura fiel a “sistemas” (vale dizer que muitos não se consideram sistemas, por questão de método, mas o que não quer dizer que eles não se comportem como tal) que almejam lançar respostas que sirvam de raiz a todos esses problemas – não deixo de pensar aqui em Foucault e sua tese sobre o poder -, parece que as teorias chegam mais perto de serem colocadas em prática, se é que podemos falar assim, se é que esses conceitos ainda funcionam depois das teses formuladas pelos teóricos da linguagem e da ação.

Divago. Divago porque nunca penso que os problemas públicos podem ser respondidos de formas simples, ainda que essas respostas tenham sido resultado de pesquisas sérias, mas sabe como é, a filosofia não se conforma com respostas, vindo elas de onde vierem. A idéia é dissecar o plano do pensamento humano. Aliás, nem sei se os objetos de interesse da prática privada podem ser vistos como algo que se esgota em conversas ou mesmo série de conversas. Sabe essa gente que vai a programas de televisão e fala de “sexualidade” como se ela pudesse se restringir a determinadas práticas sexuais, pois é, aquilo não vale para ninguém, não sei como ainda tem gente que pode acreditar naquilo.

Pois bem. O que quero dizer é que erramos, erramos e erramos feio quando não sabemos tratar de forma adequada conceitos que deveriam servir para esclarecer questões e não obscurecer.  Na época de eleições, somos arremessados para esse campo da política, da ação humana. É interessante observar que, pelo menos isso é fato no nosso país, como cada um tem a sua “verdade” sobre o que seja bom para todos, segundo critérios que nem sempre são claros, mas que, ainda segundo esse cada um, são suficientes. Idéias sobre liberdade, democracia, pleno exercício dos direitos são exemplos do que se divulga, são exemplos de nomes em virtude dos quais se compra teorias de – novamente falo sob a perspectiva da realidade brasileira – partidos. O contrário também é verdadeiro, isto é, situações nas quais são apontados exemplos de modelos que não devem ser seguidos (por exemplo, a idéia de que “Você pensa que Cuba é livre? Então mude-se para lá!)  também são comuns, como se fossem a idéia-chave que encerra o problema.

Incorporando essas três questões kantianas ao exercício da prática política, nos deparamos com a necessidade de se enxergar limites para a aplicação desses conceitos. Melhor dizendo, percebemos que as categorias, os conceitos, os rótulos, os chavões, etc. não são suficientes para dar conta da realidade brasileira, nem analogicamente falando – isto é, lançando mão de comparação – e muito menos de forma “pura”, ou seja, democracia por democracia, liberdade por liberdade, etc.

O que não quer dizer que não podemos sonhar ou, falando de uma forma menos romântica, imaginar condições de vida melhores. Eu, por exemplo, gostaria de ter uma presidente que fosse capaz não só de executar os planos que reduzem vários problemas dos quais o Brasil inteiro já está consciente, como também de cuidar de questões igualmente sérias, mas que ainda não foram incorporadas à lista dos desejos dos brasileiros (como a questão ambiental). Seria muito mais “palpável”, digamos assim, para as mentes de muitas pessoas elegerem alguém com essas características do que eleger alguém com o passado de lutas, confrontos com eventos como a ditadura. Isto porque essas mentes – que não são poucas – do ponto de vista político, têm visão e memória limitadas. E isso ocorre, vale frisar, não por falta de inteligência prática – o que talvez falte muito mais nas assim chamadas elites, seja lá o que isso quer dizer -, mas é um problema muito mais de cunho educacional e, portanto, é um problema concreto, que deve ser sanado. Porém, como não temos esse modelo de presidente como possível, nem por não devemos nos desligar da idéia de os problemas – todos eles – possam ser resolvidos de forma mais lenta. Mas, mesmo para isso acontecer – a redução de alguns desses problemas, sejam econômicos, sociais, éticos, ambiental ou quaisquer outros -, temos que ter em mente critérios objetivos fundamentais, para isso, precisamos nortear os mesmos critérios, pois, reitero, é uma questão política, e não pertence apenas ao âmbito individual. De modo de questões como as kantianas: “O que eu posso saber?”, “O que eu devo fazer?”, e “O que eu devo esperar?” podem ser instrumentalmente aplicadas para o próprio esclarecimento da realidade. Sei que isso pode soar bastante iluminista, mas juro que essa não é a intenção.  Faço alusão ao reconhecimento de limites, ao que eu posso saber, ao que eu devo fazer e ao que eu devo esperar em relação aquilo que de fato interessa: nesse caso, a realidade brasileira no período de quatro anos. Eu posso saber tudo? Provavelmente não, mas posso saber do que já foi feito anteriormente, os planos que foram executados, os que não foram, o que foram aplicados de forma a favorecer à população, o que não, posso também saber quais os planos e propostas, etc. O que eu devo fazer? Como eu, enquanto sujeito, posso contribuir para que o que está sendo feito de correto continue sendo feito, como eu posso denunciar o que está sendo feito de errado, como eu posso me manifestar, quando e em que circunstâncias, etc. E o que eu devo esperar? Poderia falar muito sobre o que se deve esperar, mas em síntese, posso esperar pela repetição de erros ou pela mudança em benefício próprio como em benefício dos meus próximos, inclusive, dos que ainda estão por vir.

Talvez assim se possa construir o espaço no qual esses conceitos sejam aplicados, talvez assim cheguemos mais próximos ao campo da democracia, da liberdade, do pleno exercício dos direitos e tantas outras coisas tão caras aos indivíduos. Talvez seja o caso que, conseqüentemente, as pessoas passem a discernir de forma coerente o que é necessário daquilo que é apenas possível, o que já existe do que ainda pode existir, em suma, o que foi feito, o que está sendo feito e o que ainda pode ser feito. E que não venham falsos portadores da verdade apontar aquilo que supostamente é interesse comum, mas que nem me reconheço nele. Que não tentem vender, Folha, Veja e tantas outras, aquilo que ninguém está interessado em comprar: mentiras velhas que são fruto do pacto feito com as instituições que imortalizam o atraso com vistas apenas ao seu benefício próprio, pois essas mesmas instituições esqueceram-se de que quando Aristóteles falou que o homem é um animal essencialmente político, essa fala vem acompanhada de diversas implicações, implicações essas de toda sorte: sociais, morais, éticas.

Deixemos de lado, como afirmou Guy Debord, essa linguagem que reúne e mantém o separado, mas como separado. É que Debord, como bom hegeliano que era, entendia que só a partir do momento em que se admite que há separações, é que elas podem ser superadas. Ou seja, para quem a Folha, a Veja e tantas outras querem vender? Quais seus reais interesses e a quem elas servem? Em nome de quem se levanta as bandeiras que são levantadas por elas?

Talvez não tenhamos mais como realizar a ética das virtudes de Aristóteles, ninguém mais acredita em ideais, ainda mais iluministas, tampouco, acredito eu, temos a disposição que tiveram aqueles panfletários e dissidentes de 68, mas temos outros meios para construir esse espaço, só resta saber de que forma usá-los. De qualquer forma, que aprendamos a usá-los sozinhos, de forma autônoma – não “sozinhos” como pensou Kant, que não tematizou a intersubjetividade, não falo nos termos de uma subjetividade excluída de todo o resto, mas sozinhos no sentido de que não venha algo externo às vontades que estão em jogo impor práticas sociais com o único intuito de alimentar os seus próprios interesses.

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  1. Acho que adotamos o mesmo “tema” no wordpress!!!!
    Como vai, cara Ademonista?:)

  2. Oi! Tudo bem por aqui, é o Patriarca, não é? Bem, consegui me livrar em parte do bloqueio que estava me impedindo de escrever, de me dedicar à minha pesquisa, mas agora as coisas estão se ajustando, eu acho.

    E por aí?

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