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Arquivo do mês: outubro 2010

O dia de hoje

Publicado em

Estou ocupada com umas coisas aqui, pois vou viajar mais tarde, na madrugada depois das eleições. Mas não posso deixar de compartilhar com o pessoal que movimenta a internet o sentimento que o dia de hoje carrega. Textos do Na prática a teoria é outra, do O biscoito fino e a massa e muitos outros vibram, pulsam e é tudo muito bom; só espero que estejamos todos certos e que nossas intenções se confirmem. Aproveito para divulgar algo que tive a oportunidade de ler no fórum de compartilhamento de filmes Making Off, quem postou essa “opinião” foi o Branco Leone.

Para se entender o comentário dele, há que se postar também o comentário que serviu de impulso para ele escrever isso, segue abaixo:

Ver postfrog, em 02 October 2010 – 12:33 PM, disse:

se vc vai de SP até Salvador de carro, vc compra o carro, enche o tanque, faz a manutenção, cria o melhor roteiro a ser seguido, daí chega na fronteira entre MG E BA e outro leva o carro até Salvador, no caminho troca o estepe e completa o tanque e quando chega a Salvador bate no peito e diz: “eu sozinho cheguei aqui!” -É isso que é o mandato lulla

A resposta do Branco Leone foi a seguinte:

Ver post

Frog,

sua “parábola” da viagem São Paulo-Salvador é interessante. Acredito que você tenha tido a intenção de ilustrar a “passada de bastão” do FHC ao Lula, concluindo sobre a injustiça de se dar a medalha apenas ao atleta que cruza a linha de chegada. Vou desconsiderar algumas informações “embutidas” — pois minha interpretação pode ser tendenciosa — como, por exemplo, você relacionar São Paulo ao “bom progresso” e a Bahia a “atraso” (‘…outro leva o carro até Salvador, no caminho troca o estepe…’).

Ao invés disso, vou pegar seu exemplo (da viagem São Paulo a Salvador) quase que literalmente, pois é um trajeto que faço todo ano, de carro. As únicas diferenças para seu exemplo são 1) que prefiro ir pelo Rio de Janeiro e Espírito Santo, e 2) que, às vezes, passo bastante de Salvador, alcançando Recife por caminhos variados.

Foi nessas viagens — que têm sido anuais desde 2000 — que me tornei… como dizer?… petista? Lulista? Tenho minhas dúvidas sobre minha condição, pois não me sinto Petista e não sou Lulista. Para ser mais honesto, seria melhor dizer que eu ESTOU Petista, ESTOU Lulista desde então. Tá certo que estou Petista há mais de dez anos (sem contar outros 20 anos de esquerda quase radical em que estive antes disso), mas mesmo assim garanto que apenas estou Petista, não sou.

Nessas condições, meu olhar não pode ser chamado de “olhar padrão” de um sudestino. Antes, é o olhar de um brasileiro, e só é assim porque sinto vergonha do que fazem meus conterrâneos, sinto vergonha de como o sul-sudestino médio se comporta em relação ao Brasil, de como vive de arrotar sua superioridade babaca, feito o rei nu que desfila balançando seu saco murcho, alvo da chacota dos que fingem aplaudi-lo. Tenho vergonha de ser paulista e paulistano, mas como sou, só posso tentar evitar que se perpetuem os motivos que tenho para sentir essa vergonha.

Infelizmente, é só quem vê a coisa com esses olhos “estrangeiros” que pode entender por que Lula é tão aplaudido, no resto do país e fora dele. É tudo uma questão de repertório. Repertório, como devem saber os que lidam com comunicação, é aquele conjunto de informações que, sendo comum a transmissor e receptor de uma mensagem, permite a comunicação entre eles, isto é, a migração de uma informação. Em outras palavras, não se pode exigir que um espanhol entenda uma frase em russo porque transmissor e receptor da mensagem não compartilham o mesmo código verbal (que é UM DOS componentes importantes do repertório necessário para tal).

Tenho percebido que esse mal assola o sul-sudestino em geral e, como não podia deixar de ser, os seus políticos. Eu poderia me estender aqui em mil exemplos, mas vou ficar com uma promessa de campanha de Fábio Feldman, ex-PSDBista, candidato ao governo de SP pelo PV): num eventual governo, Feldman diz que daria especial atenção aos portadores de transtornos alimentares, como anorexia e obesidade. É certo que ele não está fazendo campanha para presidente, mas essa promessa revela como o sul-sudestino médio vê o brasileiro e seus problemas. A dificuldade de entendimento (por falta de repertório, apenas por isso) é tão grande, que ele nem sabe o que diz ao eleitorado. Por mais bem intencionado que esteja, a promessa que faz é algo tão distante da realidade da população (DE SÂO PAULO), que seria cômica se não fosse triste de tão constrangedora. Há dúzias dessas pérolas, como a “ciclovia de domingo” (obrigatoriamente para lazer, não para ajudar no trânsito), o abaixo-assinado que correu Higienópolis contra a construção de uma estação de Metrô no bairro (porque isso vai encher o bairro de ambulantes e pedintes, e que se danem as pessoas que lá trabalham), o aluguel de bicicletas nas estações de metrô para a “população” (que só podem ser alugadas mediante caução assegurada por cartão de crédito), e por aí vai.

O mesmo acontece com os projetos que, reunidos por Lula, deram origem ao Bolsa Família. Podem ter sido criados antes da gestão atual, mas eram tão pífios e irrelevantes que nem se falava neles. A quantidade de exigências que se fazia ao requerente era tamanha, que a participação no programa era restrita demais para provocar algum efeito, fosse familiar ou social. Infelizmente, o paulista classe média padrão entende o Bolsa Família como símbolo do clientelismo e da perpetração da vagabundagem desse “povo preguiçoso”, e só entende assim por estar impossibilitado de ver a importância MACROECONÔMICA do programa. Quando se despeja 1 milhão de reais (que seja, é um exemplo) anualmente numa cidade do sul do Piauí que vivia de exportar solo rachado, não se está alimentando algumas centenas de vagabundos. E, caso se estivesse fazendo mesmo isso, não teria NENHUMA IMPORTÂNCIA, porque esse dinheiro começa a gerar atividade, empresas, emprego, salários, impostos, aplicações financeiras, aquisição de bens de consumo e duráveis, indústrias, emprego nas indústrias, mais impostos, e por aí vai a corrente. Dar dinheiro a “vagabundo” é maneira de gerar economia ativa onde antes só havia nada. “De quebra”, brasileiros que nunca tiveram nenhuma outra oportunidade, que não tiveram escola (porque isso nunca interessou ao “coronel”), nem luz, nem NADA, passam a ter um pouco o que comer, passam a ter condições de parar em pé com uma enxada na mão, de comprar um par de sapatos, de botar o filho no ônibus para que vá à escola, o que TALVEZ, num dia distante, faça com que ele possa morrer num mínimo de paz na consciência por ter conseguido fazer alguma coisa para a geração que deixará.

Trago também um exemplo mais “nacional”. O PSDB (e a direita em geral) sempre propagou a impossibilidade de se furar poços artesianos para todos os que precisam de água nesse país. Daí vem um presidente que, ao invés de ficar falando merda, dá duas lonas de 20 metros quadrados ao camponês do semi-árido. O camponês pega uma enxada, cava uma tanque, forra-o com uma das lonas, e lá recolhe toda a água que lhe passar por perto, seja de um riacho, seja da chuva eventual. Depois cobre o tanque com a outra lona e, como por encanto, tem água para enfrentar os meses de seca brava. Ninguém fala do programa de “Lona Família”, mas ele já corre o nordeste faz tempo.

Esses são exemplos até toscos, simplórios, concordo, mas são coisas que vejo, que tenho visto. Vejo muito mais, mas não quero me estender, até porque não vou ficar gastando palavras com quem é incapaz de entendê-las, com quem não compartilha o mesmo repertório de quem emite a informação. Fique esse meu desprezível conterrâneo, o paulista médio, com sua informação filtrada por sua revista Veja, por sua Folha, por sua Rede Globo, fique ele ridículo a balançar seu saco murcho na avenida Paulista, gritando “Cansei!” e pensando que é a locomotiva do país. E que não seja apedrejado depois, porque não é má pessoa, não merece isso. Ele é apenas cego ou imbecil, e nenhuma dessas coisa é pecado. Ou crime.

abraços

É isso, gente. Temos que superar muitos aspectos problemáticos na nossa visão acerca do Brasil, mas principalmente os nossos preconceitos. Só assim podemos continuar seguindo, e aqui eu falo de continuar seguindo não só em relação à nossa existência , que é curta, mas no sentido de ter algo para que se possa trabalhar cada vez mais e melhor em cima disso. E que não fique de herança para os próximos resquícios de um tempo sombrio, ou uma falsa democracia, que muitos sempre insistirão em manter. Mas que o que prevaleça seja algo escolhido, construído, independente do tempo exigido para isso, e, sobretudo, nosso!

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