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Somos muitos os “culpados” ou: por que Mayara Petruso está errada

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Não sei nem por onde começar a questão “Mayara Petruso”. Parece que todos os esforços realizados por diversos pensadores em torno da compreensão do espaço social e suas relações são insuficientes para dar conta de casos como esse.

Antes de tudo, quero dizer que acompanhei o desenrolar da coisa através do Twitter. Provavelmente eu não saberia que, em São Paulo, há uma estudante que deseja que outras pessoas afoguem nordestinos se não fosse um colega de curso insistindo em atacá-la depois de ela cometer o erro de tornar esse pensamento público. Mas não foi apenas o meu colega que fez isso, o Twitter é uma ferramenta de alcance nacional, logo, o erro cometido pela estudante não só se tornou público como se tornou o assunto do momento. E nesse ponto, faço uma consideração, estou de acordo com aquela que acabou de ser eleita presidenta do meu país e complemento: prefiro as besteiras, os erros e tudo o que mais vier da imprensa e de gente como Mayara Petruso à ditadura.  Desculpem-me Foucault, Guy Debord e tantos outros, mas eu prefiro esse exato momento, ainda que vocês tentem me lembrar que o “controle”, a “violência” e a “ditadura” podem ter diversas facetas.

Pois bem, voltando ao caso Mayara Petruso. Como eu tive acesso às mensagens da estudante assim que elas começaram a ser disseminadas na internet, me chamou atenção também a seguinte mensagem que ela tinha postado: “Pra que ser bonzinho? Vamos ser terroristas e sem grau de escolaridade, são os requisitos necessários para ser presidente dessa merda de Brasil.” Então eu tentei imaginar o que gente como Mayara Petruso entende por escolaridade (aliás, essa é outra questão que rende muita discussão), pois esse tema é recorrente nas críticas que são feitas ao governo do Lula por parte dessa turma que lê Olavo de Carvalho e Reinaldo de Azevedo (estou sendo bem específica).

E é aqui que eu gostaria de chegar.  Não sei se estou falando o óbvio, não sei se estou sendo ingênua, ou qualquer coisa semelhante. Concordo parcialmente com a tese do blogueiro Renato Rovaí, quando ele sugere que a estudante é retrato fiel de sua classe social. Concordo parcialmente com o amigo Raphael Douglas, quando ele afirma no Amálgama que há um certo Nordeste e nordestinos pintados de forma diferente daquela que ele, enquanto nordestino, conhece. Mas o problema se coloca, pelo menos para mim, como mais complexo.

Para quem me conhece ou me acompanha nas redes sociais, sabe como eu vibro com o trabalho de gente como Miguel Nicolelis, que é uma dessas pessoas que luta por um Brasil melhor, pois acredita na capacidade do seu povo. O doutor Nicolelis tem um trabalho fantástico na área da neurociência e, bem, ele poderia continuar trabalhando apenas fora do Brasil, pois é reconhecido internacionalmente por suas pesquisas. Mas o que ele fez? Criou um Instituto Internacional de Neurociências em Natal (RN).  Com quais objetivos? Oferecer a oportunidade de crianças e jovens terem acesso à educação especializada, à ciência de ponta, mudar a realidade sócio-econômica, entre outros. Um sonhador, um sonhador das causas impossíveis como alguém bem disse.

O que eu quero dizer é que há uma diferença entre ter/não ter escolaridade e obter sucesso enquanto indivíduo que se compromete com a realidade social. E incluo também a categoria daquele que tem excelência naquilo que realiza – só para encaixar o Nicolelis nessa história. Melhor dizendo, o que essa gente como Mayara Petruso é incapaz de entender sozinha é que podemos até existir isolados, sem contato social, mas que não construímos nem mudamos nada sem a ajuda de outras pessoas.  Alguém como Miguel Nicolelis sabe disso, mas Mayara Petruso e muitos outros não. Entretanto, Mayara não precisa ser um dos neurocientistas mais respeitados do mundo para saber disso. Um indivíduo com escolaridade pode ter consciência disso. E um indivíduo sem escolaridade também, aliás, não só é capaz de tomar consciência disso, como pode ter uma visão muito mais ampla do que a visão de muitos “instruídos” em diversos aspectos. E só para deixar claro o quanto Mayara está errada acerca dessas projeções, os indivíduos que têm essa consciência, e aqui falo de todas essas definições acima, podem se encontrar e tornar cada vez mais real o Brasil que é sonhado por muitos de nós: democrático, justo, livre. O que está em jogo é o país daquele operário que sempre fez e ainda faz tudo para que lutemos pelos mesmos objetivos, é o país daquela que foi contra e lutou contra a ditadura, é o país do cientista de renome internacional que acredita que o acesso à educação pode mudar a realidade, é o país de um tanto de alfabetizados e, claro, de outro tanto de não-alfabetizados.

É isso. A estudante Mayara Petruso não está errada somente pelo fato de querer afogar nordestinos em SP, está errada também em sua tese principal, que é considerar “culpada” apenas uma parte desse povo que é sonhador, sonhador de causas impossíveis, mas que também tem os pés no chão.  Somos todos nós os “culpados”, não apenas os que votaram em Dilma, mas também os que, independente do voto depositado na urna, sonham com e agem em virtude de um país cada vez mais digno, que ganhamos.  E somos muitos, muito mais do que Mayara – e quem quiser apoiá-la, inclusive – pode afogar.

 

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  1. Salve, Ademonista,

    Como filho da classe-média branca do Sul-Sudeste, posso te garantir que a opinião dessa nazistóide não é isolada. Ela simplesmente exprimiu os intestinos nojentos deste país, cortado de norte a sul por racismos, ódios de classe, bairrismos. Assim é desde a colônia, numa história marcada pela violência sistemática e racialmente modulada. É o efeito de superfície do meio social em que vive. Cansei de ouvir comentário semelhantes em rodinhas, mesas de bar, salas de aula etc. A maioria dessa juventude branca compartilha dos mesmos preconceitos que Mayara Petruso, e o momento mais certo deles serem extravasados é em situações de derrota e inferioridade. Não me surpreenderam a repercussão desse tuíter em milhares de usuários. Isso ativa o racismo, como quando há uma batida de carro, alguém é promovido no seu lugar, ou então quando ganham a eleição e a pessoa perde. Todo o caso é emblemático para se conscientizar de uma vez por todas que vivemos em um país econômica, cultural e sociologicamente racista e bairrista, e que somente medidas concretas, ações afirmativas podem começar a remediar o caso.

    Muito bom! beijo.

  2. Muito legal o blog, virei aq mais vezes

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