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Murar o Medo, por Mia Couto

Nesses tempos em que nós somos demasiado envolvidos pelo espírito de uma época, nos familiarizamos com manifestações que, de certa maneira, visam limitar a expressão da liberdade, embora nem sempre estejamos conscientes disso. Isso se deve muito ao fato de que, via de regra, concebemos a história a partir de uma perspectiva linear. E fazemos a distinção entre os fatos de tal modo que passamos a atribuir valor a dimensões da história, em muitos casos, passamos a escolher o nosso “lado” da história, como se essa definição fosse suficiente para dar conta do seu caráter polissêmico.

Gosto dessas palavras do Isaiah Berlin em seu livro O sentido de realidade, ao meu ver, elas expressam bem a necessidade de se considerar os critérios dos quais partimos para avaliar os fatos: “Nós não começamos nos situando em algum ponto arquimediano fora do mundo, de onde escolhemos este ou aquele ideal ou desejo, como objetivos em um supermercado; nascemos, como disse Aristóteles, em um mundo e uma sociedade; vemo-nos comprometidos com eles pelo modo que agimos normalmente, pelo fato de sermos o que somos, e estarmos onde e quando estamos (e nossas sociedades); ao tomarmos consciência disso, percebemos as contradições existentes entre os fatos e nossas noções ou fantasias, ou entre os nossos ideais, ou entre fins e meios adotados para servi-los; e podemos – e nisto consiste ser racional – tentar superá-los por meio de uma compreensão mais plena dos fatos.”

Na verdade, eu gostaria mesmo é de compartilhar esse texto (melhor ainda ver o vídeo) do Mia Couto. Trata de um desses critérios que seguimos e que nos leva a uma concepção um tanto carente de auto-reflexão. Aprecio o texto especialmente pelo fato de ele deixar em aberto a discussão, afinal, como o texto mesmo sugere, não é apenas o medo em seu caráter, por assim dizer, nu e cru que aprisiona, que silencia, mas o medo também legitimado através das formas de vida em comunidade e seus padrões de crenças e ação. Enfim, o texto e o vídeo:

Murar o medo, por Mia Couto

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

 

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Que saudade de blogar…

[…]

Somos muitos os “culpados” ou: por que Mayara Petruso está errada

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Não sei nem por onde começar a questão “Mayara Petruso”. Parece que todos os esforços realizados por diversos pensadores em torno da compreensão do espaço social e suas relações são insuficientes para dar conta de casos como esse.

Antes de tudo, quero dizer que acompanhei o desenrolar da coisa através do Twitter. Provavelmente eu não saberia que, em São Paulo, há uma estudante que deseja que outras pessoas afoguem nordestinos se não fosse um colega de curso insistindo em atacá-la depois de ela cometer o erro de tornar esse pensamento público. Mas não foi apenas o meu colega que fez isso, o Twitter é uma ferramenta de alcance nacional, logo, o erro cometido pela estudante não só se tornou público como se tornou o assunto do momento. E nesse ponto, faço uma consideração, estou de acordo com aquela que acabou de ser eleita presidenta do meu país e complemento: prefiro as besteiras, os erros e tudo o que mais vier da imprensa e de gente como Mayara Petruso à ditadura.  Desculpem-me Foucault, Guy Debord e tantos outros, mas eu prefiro esse exato momento, ainda que vocês tentem me lembrar que o “controle”, a “violência” e a “ditadura” podem ter diversas facetas.

Pois bem, voltando ao caso Mayara Petruso. Como eu tive acesso às mensagens da estudante assim que elas começaram a ser disseminadas na internet, me chamou atenção também a seguinte mensagem que ela tinha postado: “Pra que ser bonzinho? Vamos ser terroristas e sem grau de escolaridade, são os requisitos necessários para ser presidente dessa merda de Brasil.” Então eu tentei imaginar o que gente como Mayara Petruso entende por escolaridade (aliás, essa é outra questão que rende muita discussão), pois esse tema é recorrente nas críticas que são feitas ao governo do Lula por parte dessa turma que lê Olavo de Carvalho e Reinaldo de Azevedo (estou sendo bem específica).

E é aqui que eu gostaria de chegar.  Não sei se estou falando o óbvio, não sei se estou sendo ingênua, ou qualquer coisa semelhante. Concordo parcialmente com a tese do blogueiro Renato Rovaí, quando ele sugere que a estudante é retrato fiel de sua classe social. Concordo parcialmente com o amigo Raphael Douglas, quando ele afirma no Amálgama que há um certo Nordeste e nordestinos pintados de forma diferente daquela que ele, enquanto nordestino, conhece. Mas o problema se coloca, pelo menos para mim, como mais complexo.

Para quem me conhece ou me acompanha nas redes sociais, sabe como eu vibro com o trabalho de gente como Miguel Nicolelis, que é uma dessas pessoas que luta por um Brasil melhor, pois acredita na capacidade do seu povo. O doutor Nicolelis tem um trabalho fantástico na área da neurociência e, bem, ele poderia continuar trabalhando apenas fora do Brasil, pois é reconhecido internacionalmente por suas pesquisas. Mas o que ele fez? Criou um Instituto Internacional de Neurociências em Natal (RN).  Com quais objetivos? Oferecer a oportunidade de crianças e jovens terem acesso à educação especializada, à ciência de ponta, mudar a realidade sócio-econômica, entre outros. Um sonhador, um sonhador das causas impossíveis como alguém bem disse.

O que eu quero dizer é que há uma diferença entre ter/não ter escolaridade e obter sucesso enquanto indivíduo que se compromete com a realidade social. E incluo também a categoria daquele que tem excelência naquilo que realiza – só para encaixar o Nicolelis nessa história. Melhor dizendo, o que essa gente como Mayara Petruso é incapaz de entender sozinha é que podemos até existir isolados, sem contato social, mas que não construímos nem mudamos nada sem a ajuda de outras pessoas.  Alguém como Miguel Nicolelis sabe disso, mas Mayara Petruso e muitos outros não. Entretanto, Mayara não precisa ser um dos neurocientistas mais respeitados do mundo para saber disso. Um indivíduo com escolaridade pode ter consciência disso. E um indivíduo sem escolaridade também, aliás, não só é capaz de tomar consciência disso, como pode ter uma visão muito mais ampla do que a visão de muitos “instruídos” em diversos aspectos. E só para deixar claro o quanto Mayara está errada acerca dessas projeções, os indivíduos que têm essa consciência, e aqui falo de todas essas definições acima, podem se encontrar e tornar cada vez mais real o Brasil que é sonhado por muitos de nós: democrático, justo, livre. O que está em jogo é o país daquele operário que sempre fez e ainda faz tudo para que lutemos pelos mesmos objetivos, é o país daquela que foi contra e lutou contra a ditadura, é o país do cientista de renome internacional que acredita que o acesso à educação pode mudar a realidade, é o país de um tanto de alfabetizados e, claro, de outro tanto de não-alfabetizados.

É isso. A estudante Mayara Petruso não está errada somente pelo fato de querer afogar nordestinos em SP, está errada também em sua tese principal, que é considerar “culpada” apenas uma parte desse povo que é sonhador, sonhador de causas impossíveis, mas que também tem os pés no chão.  Somos todos nós os “culpados”, não apenas os que votaram em Dilma, mas também os que, independente do voto depositado na urna, sonham com e agem em virtude de um país cada vez mais digno, que ganhamos.  E somos muitos, muito mais do que Mayara – e quem quiser apoiá-la, inclusive – pode afogar.

 

O dia de hoje

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Estou ocupada com umas coisas aqui, pois vou viajar mais tarde, na madrugada depois das eleições. Mas não posso deixar de compartilhar com o pessoal que movimenta a internet o sentimento que o dia de hoje carrega. Textos do Na prática a teoria é outra, do O biscoito fino e a massa e muitos outros vibram, pulsam e é tudo muito bom; só espero que estejamos todos certos e que nossas intenções se confirmem. Aproveito para divulgar algo que tive a oportunidade de ler no fórum de compartilhamento de filmes Making Off, quem postou essa “opinião” foi o Branco Leone.

Para se entender o comentário dele, há que se postar também o comentário que serviu de impulso para ele escrever isso, segue abaixo:

Ver postfrog, em 02 October 2010 – 12:33 PM, disse:

se vc vai de SP até Salvador de carro, vc compra o carro, enche o tanque, faz a manutenção, cria o melhor roteiro a ser seguido, daí chega na fronteira entre MG E BA e outro leva o carro até Salvador, no caminho troca o estepe e completa o tanque e quando chega a Salvador bate no peito e diz: “eu sozinho cheguei aqui!” -É isso que é o mandato lulla

A resposta do Branco Leone foi a seguinte:

Ver post

Frog,

sua “parábola” da viagem São Paulo-Salvador é interessante. Acredito que você tenha tido a intenção de ilustrar a “passada de bastão” do FHC ao Lula, concluindo sobre a injustiça de se dar a medalha apenas ao atleta que cruza a linha de chegada. Vou desconsiderar algumas informações “embutidas” — pois minha interpretação pode ser tendenciosa — como, por exemplo, você relacionar São Paulo ao “bom progresso” e a Bahia a “atraso” (‘…outro leva o carro até Salvador, no caminho troca o estepe…’).

Ao invés disso, vou pegar seu exemplo (da viagem São Paulo a Salvador) quase que literalmente, pois é um trajeto que faço todo ano, de carro. As únicas diferenças para seu exemplo são 1) que prefiro ir pelo Rio de Janeiro e Espírito Santo, e 2) que, às vezes, passo bastante de Salvador, alcançando Recife por caminhos variados.

Foi nessas viagens — que têm sido anuais desde 2000 — que me tornei… como dizer?… petista? Lulista? Tenho minhas dúvidas sobre minha condição, pois não me sinto Petista e não sou Lulista. Para ser mais honesto, seria melhor dizer que eu ESTOU Petista, ESTOU Lulista desde então. Tá certo que estou Petista há mais de dez anos (sem contar outros 20 anos de esquerda quase radical em que estive antes disso), mas mesmo assim garanto que apenas estou Petista, não sou.

Nessas condições, meu olhar não pode ser chamado de “olhar padrão” de um sudestino. Antes, é o olhar de um brasileiro, e só é assim porque sinto vergonha do que fazem meus conterrâneos, sinto vergonha de como o sul-sudestino médio se comporta em relação ao Brasil, de como vive de arrotar sua superioridade babaca, feito o rei nu que desfila balançando seu saco murcho, alvo da chacota dos que fingem aplaudi-lo. Tenho vergonha de ser paulista e paulistano, mas como sou, só posso tentar evitar que se perpetuem os motivos que tenho para sentir essa vergonha.

Infelizmente, é só quem vê a coisa com esses olhos “estrangeiros” que pode entender por que Lula é tão aplaudido, no resto do país e fora dele. É tudo uma questão de repertório. Repertório, como devem saber os que lidam com comunicação, é aquele conjunto de informações que, sendo comum a transmissor e receptor de uma mensagem, permite a comunicação entre eles, isto é, a migração de uma informação. Em outras palavras, não se pode exigir que um espanhol entenda uma frase em russo porque transmissor e receptor da mensagem não compartilham o mesmo código verbal (que é UM DOS componentes importantes do repertório necessário para tal).

Tenho percebido que esse mal assola o sul-sudestino em geral e, como não podia deixar de ser, os seus políticos. Eu poderia me estender aqui em mil exemplos, mas vou ficar com uma promessa de campanha de Fábio Feldman, ex-PSDBista, candidato ao governo de SP pelo PV): num eventual governo, Feldman diz que daria especial atenção aos portadores de transtornos alimentares, como anorexia e obesidade. É certo que ele não está fazendo campanha para presidente, mas essa promessa revela como o sul-sudestino médio vê o brasileiro e seus problemas. A dificuldade de entendimento (por falta de repertório, apenas por isso) é tão grande, que ele nem sabe o que diz ao eleitorado. Por mais bem intencionado que esteja, a promessa que faz é algo tão distante da realidade da população (DE SÂO PAULO), que seria cômica se não fosse triste de tão constrangedora. Há dúzias dessas pérolas, como a “ciclovia de domingo” (obrigatoriamente para lazer, não para ajudar no trânsito), o abaixo-assinado que correu Higienópolis contra a construção de uma estação de Metrô no bairro (porque isso vai encher o bairro de ambulantes e pedintes, e que se danem as pessoas que lá trabalham), o aluguel de bicicletas nas estações de metrô para a “população” (que só podem ser alugadas mediante caução assegurada por cartão de crédito), e por aí vai.

O mesmo acontece com os projetos que, reunidos por Lula, deram origem ao Bolsa Família. Podem ter sido criados antes da gestão atual, mas eram tão pífios e irrelevantes que nem se falava neles. A quantidade de exigências que se fazia ao requerente era tamanha, que a participação no programa era restrita demais para provocar algum efeito, fosse familiar ou social. Infelizmente, o paulista classe média padrão entende o Bolsa Família como símbolo do clientelismo e da perpetração da vagabundagem desse “povo preguiçoso”, e só entende assim por estar impossibilitado de ver a importância MACROECONÔMICA do programa. Quando se despeja 1 milhão de reais (que seja, é um exemplo) anualmente numa cidade do sul do Piauí que vivia de exportar solo rachado, não se está alimentando algumas centenas de vagabundos. E, caso se estivesse fazendo mesmo isso, não teria NENHUMA IMPORTÂNCIA, porque esse dinheiro começa a gerar atividade, empresas, emprego, salários, impostos, aplicações financeiras, aquisição de bens de consumo e duráveis, indústrias, emprego nas indústrias, mais impostos, e por aí vai a corrente. Dar dinheiro a “vagabundo” é maneira de gerar economia ativa onde antes só havia nada. “De quebra”, brasileiros que nunca tiveram nenhuma outra oportunidade, que não tiveram escola (porque isso nunca interessou ao “coronel”), nem luz, nem NADA, passam a ter um pouco o que comer, passam a ter condições de parar em pé com uma enxada na mão, de comprar um par de sapatos, de botar o filho no ônibus para que vá à escola, o que TALVEZ, num dia distante, faça com que ele possa morrer num mínimo de paz na consciência por ter conseguido fazer alguma coisa para a geração que deixará.

Trago também um exemplo mais “nacional”. O PSDB (e a direita em geral) sempre propagou a impossibilidade de se furar poços artesianos para todos os que precisam de água nesse país. Daí vem um presidente que, ao invés de ficar falando merda, dá duas lonas de 20 metros quadrados ao camponês do semi-árido. O camponês pega uma enxada, cava uma tanque, forra-o com uma das lonas, e lá recolhe toda a água que lhe passar por perto, seja de um riacho, seja da chuva eventual. Depois cobre o tanque com a outra lona e, como por encanto, tem água para enfrentar os meses de seca brava. Ninguém fala do programa de “Lona Família”, mas ele já corre o nordeste faz tempo.

Esses são exemplos até toscos, simplórios, concordo, mas são coisas que vejo, que tenho visto. Vejo muito mais, mas não quero me estender, até porque não vou ficar gastando palavras com quem é incapaz de entendê-las, com quem não compartilha o mesmo repertório de quem emite a informação. Fique esse meu desprezível conterrâneo, o paulista médio, com sua informação filtrada por sua revista Veja, por sua Folha, por sua Rede Globo, fique ele ridículo a balançar seu saco murcho na avenida Paulista, gritando “Cansei!” e pensando que é a locomotiva do país. E que não seja apedrejado depois, porque não é má pessoa, não merece isso. Ele é apenas cego ou imbecil, e nenhuma dessas coisa é pecado. Ou crime.

abraços

É isso, gente. Temos que superar muitos aspectos problemáticos na nossa visão acerca do Brasil, mas principalmente os nossos preconceitos. Só assim podemos continuar seguindo, e aqui eu falo de continuar seguindo não só em relação à nossa existência , que é curta, mas no sentido de ter algo para que se possa trabalhar cada vez mais e melhor em cima disso. E que não fique de herança para os próximos resquícios de um tempo sombrio, ou uma falsa democracia, que muitos sempre insistirão em manter. Mas que o que prevaleça seja algo escolhido, construído, independente do tempo exigido para isso, e, sobretudo, nosso!

Sobre as eleições: um pouco de Aristóteles e as três perguntas kantianas

Ultimamente eu tenho agido de forma bem kantiana em relação às minhas crenças, ao que eu penso, ao que eu vivo. Kant afirmou que três questões exercem importância fundamental na filosofia, são elas: “O que eu posso saber?”, “O que eu devo fazer?”, e “O que eu devo esperar?”. Ora, elas parecem mesmo importantes não apenas por serem capazes de sistematizar aquilo que é objeto de interesse humano no sentido formal, público – o que me parece distinguir a esfera pública da privada, evitando uma confusão entre elas – mas também por preparar o homem para julgar de forma moderada. Não sei se é porque estou lendo a “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, de modo que estou sendo influenciada por ela, mas me parece muito mais intuitivo tratar de forma sistemática um assunto acompanhado de conceitos que podem ser aludidos de forma empírica, isto é, conceitos “verificáveis” que propriamente acompanhado apenas de conceitos que funcionam como regras, normas ou leis.

Agir com esses “meios” obviamente traz uma série de problemas, por exemplo, traz perguntas que aparentemente não têm resposta, simplesmente pelo fato de esse sistema não ser de “longo alcance”, mas ao mesmo tempo em que não se faz uma leitura fiel a “sistemas” (vale dizer que muitos não se consideram sistemas, por questão de método, mas o que não quer dizer que eles não se comportem como tal) que almejam lançar respostas que sirvam de raiz a todos esses problemas – não deixo de pensar aqui em Foucault e sua tese sobre o poder -, parece que as teorias chegam mais perto de serem colocadas em prática, se é que podemos falar assim, se é que esses conceitos ainda funcionam depois das teses formuladas pelos teóricos da linguagem e da ação.

Divago. Divago porque nunca penso que os problemas públicos podem ser respondidos de formas simples, ainda que essas respostas tenham sido resultado de pesquisas sérias, mas sabe como é, a filosofia não se conforma com respostas, vindo elas de onde vierem. A idéia é dissecar o plano do pensamento humano. Aliás, nem sei se os objetos de interesse da prática privada podem ser vistos como algo que se esgota em conversas ou mesmo série de conversas. Sabe essa gente que vai a programas de televisão e fala de “sexualidade” como se ela pudesse se restringir a determinadas práticas sexuais, pois é, aquilo não vale para ninguém, não sei como ainda tem gente que pode acreditar naquilo.

Pois bem. O que quero dizer é que erramos, erramos e erramos feio quando não sabemos tratar de forma adequada conceitos que deveriam servir para esclarecer questões e não obscurecer.  Na época de eleições, somos arremessados para esse campo da política, da ação humana. É interessante observar que, pelo menos isso é fato no nosso país, como cada um tem a sua “verdade” sobre o que seja bom para todos, segundo critérios que nem sempre são claros, mas que, ainda segundo esse cada um, são suficientes. Idéias sobre liberdade, democracia, pleno exercício dos direitos são exemplos do que se divulga, são exemplos de nomes em virtude dos quais se compra teorias de – novamente falo sob a perspectiva da realidade brasileira – partidos. O contrário também é verdadeiro, isto é, situações nas quais são apontados exemplos de modelos que não devem ser seguidos (por exemplo, a idéia de que “Você pensa que Cuba é livre? Então mude-se para lá!)  também são comuns, como se fossem a idéia-chave que encerra o problema.

Incorporando essas três questões kantianas ao exercício da prática política, nos deparamos com a necessidade de se enxergar limites para a aplicação desses conceitos. Melhor dizendo, percebemos que as categorias, os conceitos, os rótulos, os chavões, etc. não são suficientes para dar conta da realidade brasileira, nem analogicamente falando – isto é, lançando mão de comparação – e muito menos de forma “pura”, ou seja, democracia por democracia, liberdade por liberdade, etc.

O que não quer dizer que não podemos sonhar ou, falando de uma forma menos romântica, imaginar condições de vida melhores. Eu, por exemplo, gostaria de ter uma presidente que fosse capaz não só de executar os planos que reduzem vários problemas dos quais o Brasil inteiro já está consciente, como também de cuidar de questões igualmente sérias, mas que ainda não foram incorporadas à lista dos desejos dos brasileiros (como a questão ambiental). Seria muito mais “palpável”, digamos assim, para as mentes de muitas pessoas elegerem alguém com essas características do que eleger alguém com o passado de lutas, confrontos com eventos como a ditadura. Isto porque essas mentes – que não são poucas – do ponto de vista político, têm visão e memória limitadas. E isso ocorre, vale frisar, não por falta de inteligência prática – o que talvez falte muito mais nas assim chamadas elites, seja lá o que isso quer dizer -, mas é um problema muito mais de cunho educacional e, portanto, é um problema concreto, que deve ser sanado. Porém, como não temos esse modelo de presidente como possível, nem por não devemos nos desligar da idéia de os problemas – todos eles – possam ser resolvidos de forma mais lenta. Mas, mesmo para isso acontecer – a redução de alguns desses problemas, sejam econômicos, sociais, éticos, ambiental ou quaisquer outros -, temos que ter em mente critérios objetivos fundamentais, para isso, precisamos nortear os mesmos critérios, pois, reitero, é uma questão política, e não pertence apenas ao âmbito individual. De modo de questões como as kantianas: “O que eu posso saber?”, “O que eu devo fazer?”, e “O que eu devo esperar?” podem ser instrumentalmente aplicadas para o próprio esclarecimento da realidade. Sei que isso pode soar bastante iluminista, mas juro que essa não é a intenção.  Faço alusão ao reconhecimento de limites, ao que eu posso saber, ao que eu devo fazer e ao que eu devo esperar em relação aquilo que de fato interessa: nesse caso, a realidade brasileira no período de quatro anos. Eu posso saber tudo? Provavelmente não, mas posso saber do que já foi feito anteriormente, os planos que foram executados, os que não foram, o que foram aplicados de forma a favorecer à população, o que não, posso também saber quais os planos e propostas, etc. O que eu devo fazer? Como eu, enquanto sujeito, posso contribuir para que o que está sendo feito de correto continue sendo feito, como eu posso denunciar o que está sendo feito de errado, como eu posso me manifestar, quando e em que circunstâncias, etc. E o que eu devo esperar? Poderia falar muito sobre o que se deve esperar, mas em síntese, posso esperar pela repetição de erros ou pela mudança em benefício próprio como em benefício dos meus próximos, inclusive, dos que ainda estão por vir.

Talvez assim se possa construir o espaço no qual esses conceitos sejam aplicados, talvez assim cheguemos mais próximos ao campo da democracia, da liberdade, do pleno exercício dos direitos e tantas outras coisas tão caras aos indivíduos. Talvez seja o caso que, conseqüentemente, as pessoas passem a discernir de forma coerente o que é necessário daquilo que é apenas possível, o que já existe do que ainda pode existir, em suma, o que foi feito, o que está sendo feito e o que ainda pode ser feito. E que não venham falsos portadores da verdade apontar aquilo que supostamente é interesse comum, mas que nem me reconheço nele. Que não tentem vender, Folha, Veja e tantas outras, aquilo que ninguém está interessado em comprar: mentiras velhas que são fruto do pacto feito com as instituições que imortalizam o atraso com vistas apenas ao seu benefício próprio, pois essas mesmas instituições esqueceram-se de que quando Aristóteles falou que o homem é um animal essencialmente político, essa fala vem acompanhada de diversas implicações, implicações essas de toda sorte: sociais, morais, éticas.

Deixemos de lado, como afirmou Guy Debord, essa linguagem que reúne e mantém o separado, mas como separado. É que Debord, como bom hegeliano que era, entendia que só a partir do momento em que se admite que há separações, é que elas podem ser superadas. Ou seja, para quem a Folha, a Veja e tantas outras querem vender? Quais seus reais interesses e a quem elas servem? Em nome de quem se levanta as bandeiras que são levantadas por elas?

Talvez não tenhamos mais como realizar a ética das virtudes de Aristóteles, ninguém mais acredita em ideais, ainda mais iluministas, tampouco, acredito eu, temos a disposição que tiveram aqueles panfletários e dissidentes de 68, mas temos outros meios para construir esse espaço, só resta saber de que forma usá-los. De qualquer forma, que aprendamos a usá-los sozinhos, de forma autônoma – não “sozinhos” como pensou Kant, que não tematizou a intersubjetividade, não falo nos termos de uma subjetividade excluída de todo o resto, mas sozinhos no sentido de que não venha algo externo às vontades que estão em jogo impor práticas sociais com o único intuito de alimentar os seus próprios interesses.

Sobre certas leituras (e literaturas) filosóficas

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Ultimamente tenho tido dificuldade com leituras demoradas; aliás, com todo tipo de leitura. Há momentos em nossas vidas que a paciência esgota e, bem, minha paciência já é limitadíssima em relação a muitas esferas, uma hora isso iria acontecer também em relação àquilo que considero fundamental: a leitura de textos filosóficos.

Porém, momentos assim são válidos para aprendermos a selecionar um pouco melhor aquilo que ocupa a maior parte do nosso tempo e, em alguns casos, ajuda a ativar a nossa atenção. Desde que entrei no curso de filosofia (há uns quatro anos), eu li muitos textos – alguns bastante densos -, mas poucos foram capazes de despertar de fato o meu interesse no âmbito da pesquisa. Mas nem todos os textos devem ser lidos como monumentos da história da filosofia, e eu sempre tive isso em mente, o que me permitiu transitar (não passear, que remete a uma atividade de lazer, o que não é o caso) através de diversos caminhos.O que eu quero dizer é que nem tudo na filosofia é tese, e nem tudo pretende sê-lo. Comungo da idéia de que filosofia é também história da filosofia -não sei quem inventou essa idéia de que história da filosofia é algo ruim e que filosofia é só criação de teses filosóficas (talvez quem inventou essa idéia  fosse imaturo um imaturo intelectual e pensasse também que se deve falar de algo antes de conhecer, enfim, aquelas pessoas que pensam que só porque descobriram a filosofia, a mesma “começou” ou “acabou” com isso).

Aqui chego ao ponto que eu queria. Há literatura que nos desperta o interesse e consegue dizer a que veio. E isso, reitero, não necessariamente está ligado a uma tese. Pode ser um ensaio, um artigo de jornal ou revista, um panfleto, um post em um blog (por quê não?). Pode estar relacionado à especificação de um problema e uma possível resposta a ele.

Pois bem, estive lendo um exemplo dessa literatura, que é o livro de um autor chamado Gérard Lebrun. Do Lebrun, eu havia lido o monumental “A paciência do conceito”, uma tese riquíssima e que merece ser explorada, que trata do pensamento de Hegel. Um dos poucos livros que eu li sobre Hegel que demonstra profundidade e rigor invejáveis, mas ao mesmo tempo em que não abre mão de uma identidade com a obra, isto é, é aquele tipo de texto que parece vivo; em suma, inspirador. Também havia lido outros textos do autor sobre Kant, que conseguiram despertar igual interesse. Mas o livro em questão é “A filosofia e sua história”.

A filosofia e sua história

A filosofia e sua história

“A filosofia e sua história” é um livro que eu encontrei por acaso na última bienal do livro realizada aqui, em Fortaleza. É uma coletânea de ensaios que foi editada com o intuito de homenagear o brilhante autor francês que realizou, por quase quarenta anos, atividades no nosso país. Quando alguém me pede para recomendar algum livro de filosofia, eu fico na dúvida entre indicar uma literatura mais densa ou mais poética, entre indicar uma introdução à história da filosofia ou uma obra marcante da história da filosofia, mas certamente “A filosofia e sua história” é um livro que eu indicaria, pois ele dá aquela sensação de que não falta nem sobra nada nele, ao mesmo tempo em que a pessoa pode escolher quais ensaios deve ler, uma vez que o conteúdo é vasto, mas tudo é escrito de forma especial. Os leitores percebem o cuidado do autor com aquilo que ele escreve, e, vejam só, alguns desses ensaios foram conferências realizadas no decorrer de sua carreira acadêmica (imagino a riqueza delas, inclusive, até na apresentação do livro, é afirmado que ele era aplaudido no final de suas conferências, o que o deixava um pouco constrangido). É ótima a sensação de não ser enganado. Mas melhor ainda é a idéia de que alguém escreve aquilo que pensa que deve escrever. Eu fico muito irritada com essa “mercantilização” de idéias que ocorre de vez em quando na academia. Uma pessoa que não escreve tudo o que tem a oferecer num livro, uma pessoa que decompõe aquilo que deveria ser seu em vários pedaços (artigos) para publicar em diversos espaços que a opinião pública considera “especializados” não deveria ser digna de ter leitores. Parece ser característica do Lebrun essa força inesgotável direcionada à investigação filosófica, e isso me inspira, e isso é que eu recomendo. A especificidade de certas literaturas filosóficas fazem com que elas ganhem ou não espaço no seu campo de atuação. Essa mesma especificidade não garante que essas mesmas obras sejam lidas – tendo elas espaço ou não. Mas certamente a especificidade de uma obra a distingue de tantas outras em momentos em que a produção é grande – sendo esta mesma produção de qualidade ou não. E as especificidades da obra do Lebrun que eu quero destacar aqui é a capacidade de se fazer compreendido, porque o autor conhece a respeito do que fala, ou seja tem cultura, mas também a capacidade ser crítico sem deixar de ser cuidadoso. E isso me faz lembrar aquelas perguntas clássicas sobre o que leva o homem a filosofar, alguns dizem que é a curiosidade, outros dizem que a é a dúvida – as respostas são muitas. E tem autores que parecem despertar em nós tudo isso, isto é, parecem despertar em nós a filosofia. Depois não digam que fazer história da filosofia é ruim. Se a história da filosofia consegue despertar nos homens o interesse pelo bom pensamento filosófico, então ela não pode ser ruim.

E, só para deixar claro que talvez o próprio autor concordasse com o que estou falando, vou usar a conclusão do seu primeiro artigo da coletânea, intuitulado “Por que filósofo?”, diz ele sobre o historiador da filosofia, que não está a serviço de ideologias:

Esta é a questão que ele põe de agora em diante àqueles que pretendem residir em alguma “Verdade” ou em alguma “Justiça”. Então, que se meça quanto, uma vez mais, deve ser completa a vitória da antifilosofia deste que “sempre permanece, junto de toda a humanidade, na ofensiva, e não possui qualquer estação fixa, nenhuma residência, que estivesse em todas as ocasiões obrigado a defender!”. (Gérard Lebrun. A filosofia e sua história. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 26)


Estou voltando.

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Bem, depois de muito tempo – e de duas tentativas fracassadas de fazer um post para romper com o tempo que eu permaneci sem publicar aqui -, eu volto a ter vontade de continuar postando neste espaço.

Como foi uma vontade súbita que eu tive hoje – e espero que não seja alarme-falso -, não preparei nada. Tentei, tentei escrever, mas não consegui. Mas está nos meus planos voltar a blogar nos próximos dias.

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