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Os conflitos da religiosidade: a consciência infeliz

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Hegel descreve o caráter pobre de determinadas formas de religiosidade na obra “Fenomenologia do Espírito”, em uma figura da consciência chamada por ele de Consciência Infeliz.

A consciência infeliz é um momento no qual o indivíduo religioso encontra-se numa situação embaraçosa, pois tenta encontrar a verdade do mundo em algo fora dele, melhor dizendo, ele tenta encontrar a verdade na essência de uma consciência suprema, que governa a realidade na qual ele está inserido.  Assim sendo, ele realiza uma divisão: pensa que essa verdade (que a consciência suprema detém) é contrária à realidade terrena, o que faz com que a sua própria consciência seja inferior, inessencial. Deus é essa entidade suprema, cuja consciência remete a uma verdade imutável, atemporal; enquanto o indivíduo comum é marcado por conflitos, dificuldades, imperfeições, que fazem com que ele, para atingir essa verdade sobre o mundo,  procure se conciliar com a entidade suprema.

Os caminhos que a consciência comum encontra para superar essa dualidade são os mais variados.

Inicialmente, ela percebe que a essência dessa consciência suprema é contrária à essência de si mesma e o único conhecimento que ela tem é aquele que diz que características como onipotência, onipresença, onisciência etc., por não poderem ser atribuídas a si, devem referir-se a esse ente supremo. Logo adiante, ela, ao não encontrar esses indícios em lugar algum, admite que a única coisa com a qual ela se depara é ela própria, de modo que provavelmente este Deus esteja repelindo-a.

Em outro momento, ao mudar de opinião, esta consciência sente que o repúdio deve ser assimilado da seguinte maneira: como uma forma da entidade suprema portar-se como contrária à consciência comum, mas reconhecendo-a também como consciência. O resultado, como pode ser previsto, é essa consciência comum enxergando a si mesma como entidade junto a outra entidade, isto é, ambas como uma só.

Todavia, a verdade à qual este indivíduo almeja alcançar parece estar mais distante, pois essa consciência de verdade imutável aparentemente tem um modo diferente de se manifestar. Jesus Cristo é aquele que veio à realidade terrena, mas, por ter escolhido representar-se historicamente, já desapareceu.

O indivíduo, então, se permite a buscar Deus de outra maneira. Descarta a idéia de um ente abstrato, de um ente que seja apenas essência e tenta atingi-lo por meio do sentimento. Passa a considerá-lo como objeto para a sua consciência.

Depois dessa reformulação, onde o conceito de Deus e Deus são a mesma coisa, há novamente uma mudança de postura no tocante à relação com essa consciência essencial. Novamente o indivíduo comum pensa com o auxílio de símbolos, isto é, pensa que a verdade da sua religiosidade está no Deus figurado, o Cristo. Mas ele, mais uma vez, sente que esse símbolo está num além inatingível e, por isso, sua tentativa de identificá-lo é falha. Tenta encontrar um Deus e só se depara com um túmulo vazio, pois a entidade agora existe apenas como espírito. Hegel tece uma crítica a essa religiosidade que abdica completamente do conhecimento que, segundo ele, só é possível através da mediação de conceitos.

A consciência infeliz, diferentemente das tentativas anteriores, passa a buscar o imutável na realidade, através dos desejos, do trabalho, dos frutos do seu esforço. E agradece a entidade suprema por ter lhe oferecido a oportunidade de realizar estes atos. Ocorre aqui uma contradição: a consciência infeliz não se dá conta de que esses atos pertencem a ela mesma, pois foi ela quem desejou, trabalhou, gozou. Sendo assim, mesmo quando ela tenta renunciar esse prazer através do jejum, da mortificação, ela realiza essa renúncia apenas na aparência, pois uma vez tendo agradecido é porque foi satisfeita pro algo, isto é, por ter desejado, trabalhado, gozado.

Finalmente, o indivíduo infeliz entende que a encontrou um inimigo: ele mesmo. E resolve fazer a última tentativa para se reconciliar com essa consciência divina, tentativa que é proporcionada devido a ajuda de um mediador, pois ele admite que sozinho não é capaz de se libertar de todo o pecado, bem como é incapaz de se libertar do seu sofrimento. A conciliação, então, é possível, aos olhos da consciência pecadora, através da mediação de um padre (ou qualquer outro “servo” de Deus). Esse mediador é quem decide o que é correto, justo.

Dessa forma, a consciência infeliz renuncia a sua liberdade, a sua subjetividade, o seu Eu. Ou melhor, ela pensa conseguir isso. O que acontece, todavia, é a confirmação da sua escolha (escolha individual), do seu caráter. Essa religiosidade, portanto, carece de uma fundamentação mais coerente, que faça com que essa individualidade supere os conflitos que ela mesma fantasiou.

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Filo o quê?

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Incansavelmente as pessoas tentam definir o que seja Filosofia. Melhor dizendo, a função de um filósofo. Por mais que possamos partir do pressuposto que o significado para a palavra Filosofia seja amplo e sempre reatualizável, podemos tentar encontrar algumas bases que sirvam de parâmetro para uma possível investida filosófica.

Eu particularmente fico incomodada com certas observações acerca do caráter dito filosófico, mas fico mais ainda incomodada com o péssimo uso que fazem da Filosofia – enquanto uma vasta fonte de saberes – em virtude de abordagens limitadíssimas, por serem extremamente funcionais, esquematizadas e incapazes de serem compreendidas como um “conjunto de idéias”.

Obviamente, uma pessoa que é apta ao discurso de “natureza” filosófica consegue usar a Filosofia como um instrumento que acione as intuições dos seus interlocutores. E, na medida em que consegue ir mais a fundo na condução desses conteúdos que valorizem essas percepções do outro, obtém sucesso na execução de seus planos.

Depois dessas considerações, vamos aos fatos. Encontrei o seguinte texto “Um tradutor, por favor!!!“, e vi uma observação bem pertinente sobre a qualidade de determinados discursos. Lendo o texto que foi criticado, percebo uma certa incoerência presente nele que não condiz com o espírito livre da Filosofia. Melhor dizendo, a Filosofia, mesmo na sua condição privilegiada relativa a um dos  campos teóricos mais antigos ainda existentes, nunca se rendeu a certas práticas que tendem a torná-la estéril,  e isso se dá justamente devido a uma de suas maiores exigências: a conceituação.

O uso do discurso filosófico remete à conceituação, à problematização referente aos conceitos e não necessariamente se submete à análise de objetos factuais. A Filosofia, nesse sentido, pergunta sobre o que é verdade, sem se subordinar à esfera na qual os fatos se colocam. Por isso, via de regra, o que se coloca como mais importante na filosofia é o caráter necessário, diferente das ciências, que se particularizam em determinado tempo porque estudam objetos específicos. Em suma, a legitimação da Filosofia se dá no campo conceitual e toda articulação de discurso deveria partir desse pressuposto.

Por outro lado, alguns pensadores reivindicam outros aspectos, como Marx, que tentou definir a hora dos filósofos agirem. Vi a consideração do Luis Fernando Verissimo a respeito disso e confesso que achei interessante. Contudo, é apenas uma tentação nossa pensar que a Filosofia deve caminhar nesse passo:  servindo aos nossos interesses  – sejam eles políticos, econômicos, ideológicos, etc. Obviamente que Marx tinha um objetivo bem definido, que era usar o discurso filosófico como conscientizador, no caso, conscientizador da real condição do proletariado para depois capacitar todos em virtude de uma prática interventora. Mas dizer que a Filosofia passaria, a partir de então, a ter essa função específica, parece-me equivocado.

A Filosofia não deve renegar o “chão” fornecido pelos fatos – isto é, a segurança -, nem Hegel quis isso. Todavia, faz-se necessário pensar que esse não é o lugar onde a Filosofia reside, pois o maior interesse dela necessariamente sugere uma fundamentação diferente. Nesse sentido, concordo muito mais com a visão dos idealistas alemães, que propuseram-na como um lugar mais “elevado”. Bem, nesse caso, remeto especialmente a Fichte e Hegel. Fichte na sua Introdução à Teoria do Estado compreende a Filosofia mais como um estado que nos revela um nova visão de mundo ou, melhor dizendo, o mundo de uma visão de mundo – nesse caso, em contraponto ao saber comum. Podemos entender que essa visão é sustentada por um “eu” que age, mas, salvaguardado esse detalhe, nos aproveitamos da consideração fichtiana para defender que essa estrutura proposta não obedece ao saber comum, ao que simplesmente pode ser experenciado; pelo contrário, ela é um saber particular, que não se rende totalmente a um conteúdo que vem de fora.

Em Hegel, quando ele afirma que a Filosofia sempre chega muito tarde para “dizermos algo mais sobre a pretensão de se ensinar como deve ser o mundo”, é porque ele entende a importância da paciência do conceito. O conceito não é gerado numa pressa, ele precisa se desapegar dessas respostas imediatas oferecidas aos fatos pelo pensamento simples para conduzir as coisas de outra forma, reconstruindo-as sobre outra base. Por isso Hegel diz que a Filosofia é uma Filosofia de “reconhecimento”. Não sei até que ponto Marx ou os marxistas erraram, pois sempre quando concebo as considerações hegelianas referentes às mudanças, penso numa crítica – aliás, muitos defendem que Hegel só não utilizou esse nome “crítica” porque seus predecessores já  haviam usado e, nesse caso, preferiu não se apropriar do termo – , porém,  numa crítica que não ensina exatamente como deve ser, mas estabelece parâmetros para analisar o que está posto se e se somente se tomarmos os conteúdos em uma perspectiva conceitual, melhor dizendo, se se abdica da particularidade dos fatos. Um dos pontos coerentes, se é que podemos nos referir a ele assim, da teoria hegeliana é que ela oferece uma “margem de erro” nas teorias – que não é oferecida pelas teorias observacionais – ao implicar a contradição dentro do sistema. A contradição admitida na vida faz com que o conceito seja mais correto ao falar do real, em certo sentido.

Analisando melhor todas essas condições, podemos chegar a um consenso sobre as questões: a Filosofia é, acima de tudo, um campo de reflexão. Se ela cumpre esse papel de suscitar nas pessoas esse hábito através de discursos, então já é um começo. (Assim sendo, podemos “salvar” o texto criticado em certo sentido). É por isso que a considero como um saber auto-fundante; ela funda o saber – desde os tempos mais remotos -, o saber de outros campos teóricos e o saber de si mesma. Inevitavelmente passamos a concluir que ela é absoluta, isto é, independente de todas as tentativas de limitá-la, seja através de descrições, seja submetendo-a aos fatos, seja tornando-a “funcional”, ou de qualquer outro modo.

a cortina

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Interessante observar a contraposição entre o pensamento kantiano (em linhas gerais apresentado no post anterior) e o pensamento de Hegel. Dentre várias críticas, existe a crítica hegeliana presente na sua Fenomenologia do Espírito, na qual ele expõe, no capítulo 3º, intitulado Força e Entendimento, Fenômeno e mundo supra-sensível (capítulo considerado por muitos como o mais complexo da referida obra) a tentativa do entendimento em compreender a realidade fenomênica.

O entendimento preocupa-se, inicialmente, apenas com o conceito do verdadeiro, que é o verdadeiro em-si essente, desprovido da relação com a consciência. O entendimento não pensa que, de certa forma, está contido neste resultado e, por isso, movimenta-se à vontade sem o “peso”da responsabilidade de estar interferindo no conceito do verdadeiro. O que o entendimento apresenta é que a consciência não participa deste resultado e que simplesmente capta a “essência objetiva” da coisa, isto é, ela simplesmente contempla o objeto e o apreende. A função da consciência é pegar este resultado já pronto e o apreender.

No desenvolvimento do capítulo, há a tentativa do entendimento de apreender a “lógica” presente nos momentos em que  os fenômenos se manifestam; a força, por exemplo, é um dos conceitos que servem de parâmetro para o resultado que o entendimento almeja alcançar. Além disso, através deste capítulo, Hegel tenta expor a que níveis de contradição o “entendimento” chega quando tenta compreender o movimento a partir do momento em que ele trabalha a dicotomia fenômeno (o modo como a coisa é percebida) e coisa – ou mundo supra-sensível – que, por sua vez, é regida por leis específicas e que devem ser apreendidas.

De todo modo, o que tentamos colocar aqui é a contraposição entre as duas visões. De acordo com Hegel (*), Kant permaneceu no Entendimento e não progrediu no conhecimento. Segundo ele, o momento em que Kant permaneceu, ao contrapor os fenômenos às coisas mesmas, é marcado por princípios, por leis, regras através das quais pensamos o mundo, mas as estruturas da realidade são muito mais que isso, a realidade é composta por incoerências, antinomias e contradições. Aliás, segundo Hegel, o motor do mundo são essas contradições. Isto é, além das leis, o mundo também é marcado essencialmente por essas contradições. Nesse sentido, não há contraposição entre a essência do mundo (que para Kant, seria o supra-sensível) e a sua existência (o fenômeno). Mas Kant não foi capaz de compreender essas contradições como sendo de fundamental importância, por isso as “baniu” do seu sistema.

A cortina foi colocada no outro post em referência àquela que Hegel comenta no final do capítulo. Segue a passagem:

Levanta-se, pois, essa cortina sobre o interior e dá-se o olhar do interior para dentro do interior: o homem do homônimo não-diferente que a si mesmo se repele, e se põe como interior diferente, mas para o qual também se dá, imediatamente, a não-diferenciação dos dois – a consciência-de-si. Fica patente que por trás da assim chamada cortina, que deve cobrir o interior, nada há para ver; a não ser que nós entremos lá dentro – tanto para ver como para que haja algo ali atrás que possa ser visto.

Fica a questão: admitimos o limite ou levantamos a cortina para ver se há algo?

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(*)Que divide a sua Fenomenologia em três momentos principais: Consciência – que, por sua vez, é subdividida em Certeza Sensível, Percepção e Entendimento -, Razão e Espírito.
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