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Leituras

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Muitas das pessoas que se apaixonaram por leituras, alguma vez na vida, já tiveram a sensação de que elas não serviram ao propósito inicial: o conhecimento. De fato, quem lê demasiadamente percebe que as coisas poderiam ter sido diferentes – e talvez até melhores – se essas leituras fossem de algum modo aplicadas ou “digeridas” melhor. Essa sensação também é similar àquela que sentimos ao lecionar, quando questionamos – discutindo com outras pessoas ou perguntando a nós mesmos – sobre o benefício relativo à atividade educacional, a resposta vem quase que naturalmente: aprendemos muito mais ao lecionar do quando pesquisamos, estudamos de maneira individual ou apenas lemos.

Schopenhauer num capítulo da obra Parerga e Paralipomena fala sobre o hábito da leitura. Segundo ele, há vários empecilhos que muitas vezes nem nos deparamos. Um deles é fazer coisas triviais em intervalos de leituras. Realmente, quando estamos lendo e somos interrompidos ou obrigados a mudar a nossa atenção para outro objeto, o entendimento fica deveras prejudicado. Muitas vezes estamos naquela linha de raciocínio importante e vem um balde de água fria para nos tirar a concentração. Voltar àquela idéia com tudo o que foi ganho? Muito difícil. Às vezes nem quando fazemos anotações o sucesso é garantido, pois as coisas desandam de tal forma que é impossível conceber aquele conjunto de imagens – outrora depositados de maneira singular em nossas consciências – com o mesmo sentido de antes. Em outras condições, mas de modo semelhante, compreender o sentido de uma obra quando nos preocupamos apenas com os pensamentos do autor em questão, excluindo assim o nosso refletir,  não é uma iniciativa muito inteligente, pois é sabido que esta é outra atividade impossível de gerar conhecimento. No máximo, somos capazes de reproduzir o que já foi colocado por outras cabeças pensantes, mas colocar questões com o apoio da imaginação e acompanha-las com o raciocínio crítico que é bom: nada.

Bem, que problema há nisso? Nenhum. A não ser o fato de que um indivíduo ao desconsiderar essas problemáticas seja incapaz de instanciar uma esfera geradora de sentido. Trocando em miúdos, não há progresso no conhecimento, apenas “profissionais” especialistas na história dele. Isso sem contar com os picaretas de plantão,  que, além de não ajudarem, fazem um desfavor à sociedade.

O engraçado é que Schopenhauer sempre teve esses insights interessantassímos. Lógico que eu tentando apresentar, a coisa fica, digamos, empobrecida. Não tenho o recurso da maldizência schopenhaueriana que é tão peculiar. Numa pequena consideração sobre o barulho, por exemplo, ele consegue acertar de tal forma que realmente nós nos reconhececemos naquilo; são as nossas intuições que estão expressas ali, o nosso descontentamente com a estupidez nas suas mais variadas faces.

É capaz de sentirmos até uma vontade de desistir dessa atividade, senão vejamos:

Nenhuma qualidade literária como, por exemplo, força de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, audácia, ou amargor, ou brevidade, ou graça, ou leveza de expressão, ou ainda agudeza, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade etc., podemos adquirir lendo autores que as possuam. O que podemos é, através deles, despertar em nós tais qualidades no caso de já as possuirmos como inclinação, quer dizer em potentia, trazê-las à consciência, podemos ver tudo o que se pode fazer com elas, podemos ser fortalecidos nessa inclinação, na coragem de usá-las, podemos julgar o funcionamento de seu uso pelos exemplos e, assim, podemos aprender seu uso correto; em todo caso é só depois disto que as possuímos também em actu. Esta é a única maneira de a leitura educar-nos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer de nossos dons naturais; sempre na suposição de que esses dons existam. Sem eles, no entanto, não aprendemos com a leitura nada além de um maneirismo frio, morto, e nos tornamos imitadores superficiais.

Ele simplesmente diz que se não somos capazes, então não adianta insistirmos. Não adianta enfeitar um texto com recursos poéticos, com expressões alheias ou qualquer coisa que o valha. A superficialidade é notada. Só os ingênuos se deixam levar por isso, pois deixam de lado o mais importante: a clareza de raciocínio.

E o pior: essas escolhas – tão simples e que nem imaginamos serem assim tão importantes – dizem muito sobre o nosso caráter.

Outra provocação:

Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de livros com a apropriação de seu conteúdo.

Isso faz lembrar aquelas distintas senhoras que vão aos shoppings centers comprar seus exemplares de livros que nunca vão ler – a não ser a capa e a contra-capa. Ou aqueles jovens que pensam ser detentores de um sistema filosófico sem ao menos questionarem a própria utilidade do mesmo. Ou ainda…É, são muitos exemplos. Melhor deixar para lá.

Por último, seria bom pensar, de vez em quando, o quanto tempo perdemos ao ler certas publicações, ensaios, textos apenas tendo em mente uma atualização. Um upgrade intelectual. Convenhamos que Schopenhauer até que está certo:

Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos.

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